Quis Custodiet Ipsos Custodes? Quem vigia os vigilantes? Quem vigia os vigias? Quem guardará os guardas? Quem irá vigiar os próprios vigilantes? E quem fiscaliza os fiscalizadores? Essas questões foram levantadas pelo poeta romano Juvenal, na Antiguidade. E foram com esses pensamentos que tive a intenção de criar este meu blog, para melhorar os meus próprios pensamentos e compartilhar com as pessoas interessadas em tal, fora o fato primordial de qualquer filosofia: fazer você pensar usando a Razão.


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Positivamente loucos (primeira parte)

"O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria." (Isaac Asimov)

Loucura é uma palavra demasiada pesada, todavia, deveras ela é bem utilizada para este caso. Em um dos meus textos, Os Senhores do Paradoxo, fiz uma análise breve do decaimento da filosofia durante a Idade Moderna e a Contemporânea, mas não exibi nem um pouco as correntes de pensamento que deterioram a filosofia, e portanto, causam um dano a humanidade como um todo, dado que a filosofia influencia o andar da civilização a longo prazo. Mas também não exibirei todas ou a maioria destas, pois o texto ficaria muito grande, mas sim duas delas, o positivismo, e o neo-positivismo, resquícios e influências desses pensamentos são muito evidentes nas ciências contemporâneas e nos livros que contam a história da ciência e do progresso científico humano, e  influencias diretas ou indiretas deste são muito evidenciadas, também, em alguns discursos de cunho político, como o discurso libertário ou comunista, e a loucura estérica intrínseca em seus discursos e pensamentos, se analisados corretamente, ou seja, para além do que o idealizador destes pensamentos diz, para uma análise profunda do pensamento do idealizador. Oque é raro de ocorrer, ao menos no que tenho notado, no meio intelectual.
Retrato de Lavoisier e sua esposa, de Jacques-Louis David
O problema em si não é a ciência (refiro-me aqui a todas as ciências, sejam elas de cunho "exato", biológico ou humano), o método científico ou o uso dela para corrigir certos erros cometidos, em termos de ciência, no passado do homem, como por exemplo o geocentrismo, mas sim dar a ciência um ar de divino, isto é, por na ciência um cargo de detentora da verdade e ordenadora do mundo, dando a entender que antigas civilizações e sociedades humanas são inferiores a nossa pela carência de ciências, de modo geral ou particular, em seus respectivos meios culturais, nestas sociedades e civilizações. O pensamento de que uma sociedade é maior ou melhor do que a outra pelo simples avanço em medicina, física, história, geografia ou a criação de novas ciências por meio de investigações de novos estudos, é totalmente falho e muito preocupante, pois se uma sociedade existe, e ela tem agentes culturais que moldaram ela da forma que ela é hoje, os mesmos agentes culturais, que estão em uma sociedade que foi, ou está sendo, contaminada por um pensamento desse, serão gravemente atacados e desonestamente rotulados de ultrapassados e caídos, em comparação com a sociedade atual, isto é, se criará uma sociedade onde os valores e ensinamentos dados por estes antigos agentes culturais serão totalmente desprezados e execrados por conta deste pensamento falso de superioridade, e por causa de um progresso científico notório em algumas áreas. Tal pensamento não limita-se em danar apenas os antigos agentes (o "agente", neste caso, não necessariamente trata-se de uma pessoa, um grupo de pessoas ou de instituições do meio social, pode ser alguma matéria antiga que entra em grande contraste com o progresso, ou a noção do mesmo, científico, pode ser uma cosmovisão, uma filosofia, um pensamento de senso-comum, embora este sempre deva ser contestado, ou até mesmo concepções de ética e moral), mas também todo e qualquer pensamento, seja ele novo ou não, que se embase ou apresente alguma defesa a um destes antigos agentes.
Os agentes culturais até podem estar "errados" em algum ponto ou a metodologia destes é falha para ensinar algum bem de maneira satisfatória para o povo, todavia, o combate ideológico feroz e cego a estes agentes é algo que deve ser censurado, principalmente se estes agentes forem experientes em relação ao humano e como as coisas funcionam no coletivo e individual, como por exemplo, as grandes religiões, estas tem séculos ou milênios de experiencia com o humano, apesar de existirem abusos na administração ou um controle sobre a população por parte delas em algum momento (ou vários) da sua história, são estas, que além de tudo, até da própria filosofia, que criam conceitos e noções de moral na sociedade em questão, e por criarem tais conceitos e noções de moral, afeta-se, também, o Estado com o fator religioso, uma vez que elas nascem na sociedade, e esta cria o estado (a exceção de uma colônia, que é um Estado criado por outro Estado, mas se esta vier a se tornar um Estado independente, será criado um Estado, na concepção de Estado Justo, de acordo com a sociedade). Outro exemplo a ser citado é a filosofia, mesmo que existam certas linhas filosóficas apresentem certos "erros", o abandono dela para uma desculpa de progresso é totalmente inadmissível, pois é ela que também ajuda, tanto ou mais que a religião, dependendo do caso, a montar os sistemas de ordem do governo, se será uma monarquia, democracia e etc, mesmo que uma certa filosofia seja, de certo modo, "opressora" da sociedade que ela habita, esta não pode ser tirada a força e desonestamente da sociedade, pois isso pode gerar violência e uma cultura de ódio dentro da mesma, em todo caso, não é aceitável que se ataque uma sociedade com mudanças tão severas e desonestas, porque mesmo que a mudança seja boa, os métodos de faze-la acontecer não são bons, e criasse-a problemas futuramente com uma mudança neste nível, e isto entraria em uma notória contradição com o discurso inicial da proposta de mudança para que ocorra o progresso, pois não traria progresso, e sim uma derrocada em uma sociedade que detinha valores culturais antigos e valiosos para a mesma, pois não se pode planificar as sociedades humanas, porque depois da palavra sociedades, vem a palavra humana, e o humano é tão instável que chega a ser estável. 
Mas é preciso expor o erro, em vários níveis, da concepção de progresso e como ele ocorre na humanidade, do positivismo, não no conteúdo da proposta simplesmente, contudo, deve se analisar  substancialmente, é assim que se estuda profunda e seriamente alguma proposta ideológica, pois o conteúdo da proposta sempre será expresso exaltando as qualidades, expectativas, esperanças e etc, porém, não terá uma concepção realista da proposta em questão. Segundo o positivismo a humanidade tem três fazes de desenvolvimento, a primeira é a Teológica, a segunda é a Metafísica e a terceira é a Positiva. Em relação a primeira é considerado que a humanidade explica a realidade a sua volta por meio de entidades dividas, deuses, espíritos e etc, a segunda diz que a humanidade já apresenta algum progresso, pois agora usa-se a razão para certas explicações, porém, ainda existem questionamentos a respeito da Criação do homem e de seu fim, já a terceira (que nunca chegou, e nem chegará), nem se busca mais o "por que" no universo a nossa volta, mas sim o "como", e aqui aplica-se o racionalismo exacerbado e cientificismo-empirista em todo e qualquer pensamento, dando a ideia de que não se pode chegar a explicação concreta de algo, sem as metodologias modernas e atuais, o principal erro deste pensamento é o de acreditar que a humanidade progride, como se fosse subir uma escada, entretanto, historicamente existem comprovações de civilizações mais avançadas do que as outras e que tais civilizações chegaram ao seu colapso, isto é, os homens naquela civilização alcançaram um patamar em termos de tecnologia, cultura e poder, na teoria positivista, esta civilização deveria continuar crescendo, trocando o "misticismo" pela metafísica e a metafísica, mais tarde, pelo pensamento positivo (cientificista), mas se essa civilização (ou sociedade) cai, como por exemplo o Império Romano, ela tem uma regressão praticamente que total em seus avanços, isto é, os mesmos que eram modernos, cultos e poderosos transformam-se em antigos, ignorantes e fracos com a queda de uma sociedade, Roma é o melhor exemplo existente, a cidade de Roma, eu seu auge, tinha um milhão de habitantes (marca que só foi atingida novamente mais de mil anos depois, com Paris, no séc. XIX), e cidades com essa proporção de pessoas só se tornaram possível depois da Segunda Revolução Industrial, e só se tronaram comuns quase cem anos depois desta, em 1950.
A lógica do mesmo, quanto deparada com a realidade, é o que o condena, pois se a humanidade tem o seu progresso vinculado com o progredir do tempo, então os bárbaros que destruíram o Império Romano (não foi a única causa da sua queda, deve-se ressaltar que a divisão do Império em dois, o enfraquecimento das províncias e a abolição do regime escravocrata, este último por influência da Igreja Católica, influenciaram muito na sua queda) deveriam estar mais avançados do que os romanos, mas não estavam, tanto que o começo da Idade Média foi marcado pela barbárie cometida por povos bárbaros contra o Ocidente que se desvinculou de Roma, a queda na cultura e no progresso científico só foram "reparados" no século XII (considerando que Roma caiu no séc. V). Este é o erro fundamental do positivismo, dizer que a humanidade tem um crescimento positivo com o passar dos séculos, mas existem provas de que a mesma caiu depois de um período de ascensão, inclusive, se formos levar para um período mais contemporâneo, como no final do séc.XIX e até a década de 1980, a humanidade foi cada vez mais se afastando do espiritual na década de 80 do séc. XX, mas se compararmos os avanços tecnológicos da década de 1980 até 2012, com os avanços obtidos na Segunda Revolução Industrial, no final do séc. XIX até o começo do séc. XX, veremos que a quantidade de avanços obtidos naquela época é muito maior do que os de hoje, atualmente os avanços se concentram na área de comunicações, existem outras áreas que tem avanços, é claro, mas se compararmos com os do séc. XIX e os do começo do séc. XX, onde a sociedade era mais religiosa no mundo todo, os avanços que nós temos são pequenos, pois além dos avanços em comunicação (se inventou o telefone, televisão, telégrafo, rádio e etc), antes, se teve avanços nos meios de transporte (inventou-se carros automóveis, aviões, navios a vapor mais potentes, houve uma melhora nos motores), avanços imprescindíveis na tecnologia de energias (a eletricidade e os sistemas elétricos de hoje são todos baseados, e dependendo do lugar, cópias dos sistemas elétricos da década de 1940), de construção (pontes enormes, estradas gigantescas e arranha-céus) e etc, recentemente só se viu uma evolução mais acentuada na comunicação, aonde a conectividade das pessoas aumentou para um nível nunca antes visto, mas comparados a os de uma sociedade mais religiosa não chegam a grandeza quantitativa e aos níveis de importância (só existe internet porque existe eletricidade). 
Mas seria culpa da religião o progresso? Não necessariamente. Devemos levar em conta que na época ocorreram uma revolução industrial e duas Grandes Guerras mundiais, aonde os sistemas foram se aprimorando com mais velocidade por causa da guerra, porém, o fato de que em uma sociedade mais religiosa, se comparada com a nossa, teve um progresso bem mais elevado desmorona o positivismo em outro fator em sua teoria, pois apresenta uma contradição da sociedade humana com o proposto pelo próprio. Uma sociedade aonde existe o fator religião e o fator da metafísica consegue ter mais avanços científicos (e avanços de mais importância) do que uma que não tem, porque isso não depende da religião ou do que é pregado por ela, isto depende de vários fatores esternos e internos de uma sociedade ou civilização, isso é que faz ela crescer ou não, não é a progressão do tempo ou o "misticismo" que existe nestas que irá acarretar em seu progresso, regresso ou paralisação nos meios científicos e culturais existentes nela.

sábado, 14 de julho de 2012

Um "sopro de beleza"

"Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece" (Franz Kafka)

Se existe algo que é imutável, algo que transcende a existência carnal e natural do homem é a beleza, mesmo que esta apresente-se na mesma carne e na mesma natureza que a rodeia, ela precisa ser algo para além destas. Algo que é evidente, é a beleza, algo que ultrapassa o corpo é a beleza, pois a beleza não esta unicamente no corpo ou na matéria em questão, ela esta na essência destes, e nestes ela habita imutavelmente. Uma rosa, mesmo depois de queimada ou triturada, ainda é bela, pois o material é passageiro e mutante, mas a essência da rosa nunca mudará. A rosa é bela e ponto.
Mas como ter uma certeza tão grande, e atualmente, polêmica? A beleza não trata-se de uma simplória e passageira noção relativista cultural, a beleza não é uma estética bela, ela ultrapassa as noções de estética, pois não é só com formas que se consegue ser belo, consegue-se ser belo (beleza confunde-se com nobreza nestes quesitos) na música e na poesia, a beleza pode existir no trabalho e no ser, não apenas em esculturas, prédios e pinturas, encontra-se a beleza em vários locais, pois o belo é harmônico, o belo não é disforme e caótico, para existir algo assim é necessário uma certa harmonia, e é com ela que vem a beleza. Não existe beleza em uma imagem que, por essência, é disforme e caótica, não existe beleza em uma poça de lama ou em roupas sujas, tão pouco em uma escultura de lixo, pois quando tenta-se aplicar a beleza em coisas sem harmonia, a beleza morre, ela desfigura-se e não pode ser identificada como beleza sem a ordem.
Embora a beleza transcenda a matéria que esta habita, ela não habita em tudo que existe. Em uma foto de uma poça de lama, se esta foto tentar mostrar o real e a essência desta poça de lama, não vai haver beleza em algo que demonstra alguma coisa feia e disforme, pois assim como não existe luz na escuridão, não pode existir beleza em uma obra ou algo que retrata a feiura essencial, e que a represente da mesma maneira, de alguma coisa. Dizer que existe beleza em utilizar o lixo, e a essência deste, em alguma obra, seria da mesma ordem que retratar a beleza humana utilizando o egoísmo e os erros do homem, seria a mesma coisa em que se retratar a natureza apenas com aquilo que a torna disforme e feia, pois a arte, para ser uma arte, precisa da beleza dos seres ou das coisas, porque se existe uma arte, ela tem que ser efetuada com beleza, isto é a essência da arte.
A Festa de São Nicolau, de Jan Havickszoon Steen
As verdadeiras e grandes obras de arte expressam a vida e a essência desta vida em suas obras, mesmo que estas não sejam pinturas ou esculturas, a arte é um meio aonde pegamos o que existe de melhor e transferimos para algum trabalho, mesmo até, por exemplo, na medicina exista arte, pois o médico que realmente sabe fazer um bom e belo trabalho em seu campo medicinal, consegue transmitir o essencial de seus conhecimentos e virtudes que o homem da medicina tem, ora, se este não transmitisse em seu trabalho tais essências boas, poderia ele ser um médico? Poderia tal coisa que ele faz ser chamada de arte ou até mesmo ser titulada como medicina? Se fossemos acreditar que a arte e beleza são relativas, por que não um torturador não poderia  também ser um médico, seu trabalho uma arte e sua tortura um tipo de medicina? Não poderia, pois se fossemos relativistas na medicina, a medicina ficaria estagnada, e ficando em tal forma ela não seria mais o que ela é, ela vira em um ato um milhão de coisas, menos aquilo que ela deveria ser. Assim fazem, aqueles que utilizam do feio para querer retratar o bonito, assim se faz no modernismo e no pós-modernismo, assim se estraga e adultera a arte.
Mas não deveria ser feio e desforme quando os artistas tentam transmitir para o papel algo mal e essencialmente ruim? Sim, a feiura e o caos de coisas que são ruins e feias também são transmitidos na arte, porém, existe uma variante em relação a isso de acordo com o que quer se mostrar em relação a figura, por exemplo, a retratação de uma guerra, sendo representado não a imponência dos exércitos, nem o brilho das armas ou a coragem dos soldados, mas sim o horror e morte da guerra (um exemplo de demonstração do mal da guerra esta presente na obra O Senhor dos Anéis, de J.R.R Tolkien, para olhos bem atentos em literatura consegue perceber que, mesmo em uma guerra justa, os malefícios e calamidades desta são tão grandes que não igualam-se, para quem sofre diretamente com ela, aos bens que a guerra pode trazer, ou seja, a guerra é um mal necessário para impedir um mal maior, mas mesmo assim, não deixa de ter as consequências ruins e feias por ser um mal), ainda sim consegue ser uma obra de arte, a arte depende bastante da beleza interior existente, porém, ela pode-se utilizar desta beleza para retratar algo feio, ela pode usar desta vivacidade para retratar algo que é ruim. Aqui nota-se uma aparente contradição entre a beleza e a arte, pois ora ela é dependente da beleza para existir como tal, mas hora ela também consegue retratar algo feio e ruim, tal fato existe porque a arte tem o poder, além de retratar, de dar forma as coisas e seres, mesmo que estes são sejam visíveis, um pintor, por exemplo, pode retratar a tristeza de uma esposa que foi traída em um quadro, mas sem necessariamente a obra do pintor apresentar a mesma feiura e o mesmo desespero.
Uma Quimera, na Catedral de Notre-Dame de Paris.
O fato de poder retratar algo ruim com beleza parece um notório paradoxo, contudo, é um fato que existe na arte, pois a arte não retrata apenas algo que existe neste mundo, arte que é arte consegue puxar algo para além do mundo, artistas são aqueles que acima de quase todos os outros homens, conseguem (e muito bem) exprimir a transcendência existente para as suas obras, os artistas são aqueles que liquidam com o materialismo em suas obras, pois mostram com o material, que o próprio material tem a mais, que a beleza que existe na matéria é maior que esta, que é, segundo Aristóteles, imutável e não existe possibilidade de mudar a beleza, pois a beleza é infinita, não termina, e se não termina não é deste mundo. Estas são as razões de existir a aparente contradição que a arte enfrenta, uma obra bonita de arte pode sim representar algo feio e ruim, um escritor pode por em seu livro com maestria e imponência belas e maravilhosas, o desespero de um filho que perde um pai, ou um escultor pode por em sua obra a figura grotesca e disforme de um demônio, todavia, com talento e uma imponência também. Isto não afeta a arte em si, o que a afeta é o adultério que ocorre quando se troca beleza da obra com a feiura do mundo, ou seja, quando na arte a feiura e o ruim ganham da beleza e do bom, ora, se o mal ganha do bem e o feio do belo, não é algo ruim e danoso? Logo, quando se relativiza extremamente a arte tal fato é consumado, pois nas obras relativistas o bom perde para o mau e o feio ganha do belo nas obras. Eis o problema de toda a arte moderna e pós-moderna. 

domingo, 8 de julho de 2012

De que serve a poesia?

“À pergunta habitual: ‘Por que é que escreve?’. A resposta do poeta será sempre a mais curta: ‘Para viver melhor’” (Saint-Jonh Perse)
Cena de Interior, de Edilson Elio Barbosa

Muito se perdeu, em matéria de arte, durante o movimento modernista e contemporâneo dentro da mesma, a harmonia, beleza e profundidade foram trocadas por noções relativistas da beleza, algo que, segundo Aristóteles, é imutável e puro dentro do Universo que nos rodeia, não só na natureza ao redor do homem tem beleza, ou nas criações do próprio ser-humano, mas sim no próprio homem, independente da estética ou do conceito de beleza que a cultura atuante tenha, a beleza em si vai pra além da imagem, ou até mesmo das palavras, o belo é maior do que a carne e a matéria, o belo é algo que transcende o nosso mundo. A poesia é uma das formas de mostrar tal beleza, ela transfere para o papel sentimentos, razões, crenças e também consegue transferir filosofias inteiras em poucos versos, versos tão preciosos que o próprio ouro, em termos de significância para gerações futuras, valeria pouco em comparação a estes versos, neles também existe a transferência da beleza do universo natural para o papel, as sutilizas e imponências que a compõem são transferidas de uma maneira magnífica dentro de um bom poema, assim como o pesar e a tensa realidade que existem dentro e fora do homem e da natureza, a poesia é uma forma de viver aquilo que não se vive e de respirar aquilo que não pode-se respirar, ela é uma das maiores conquistas que a humanidade conseguiu, e ainda sim, sobretudo em tempos mais recentes e atuais, é sujada e, em extremos, totalmente abandonada e estereotipada. Eis o "bem" que a modernidade trás consigo.
Na poesia a humanidade pode conhecer-se melhor em seu íntimo, nela, sobretudo, pode-se fazer a considerada impossível ligação entre a razão e a emoção humana, ela liga as duas partes essenciais do homem, hora servindo uma, hora servindo outra, mas ainda sim usando as duas para compor a obra em questão. Ligando o sentimento com o pensamento o poeta pode ser mais até do que o filósofo, pode escrever pequenas preciosidades que valem por livros e palestras inteiras, um poeta digno de ser intitulado como tal é um ser que ultrapassa as barreiras da moda e da rotineira vida de um cidadão comum, pois ele vai além delas com suas criações, ele vai até a própria beleza humana, uma matéria que consiga atingir tão profundamente o homem é uma matéria grande, majestosa e poderosa, no entanto, ao mesmo tempo, tem a delicadeza e a sutileza dentro de sua composição, tais qualidades perdem-se na rotineira vida comum do homem.
O homem, aquele que intitula-se soberano do mundo, aquele que diz ser senhor da Terra, é tão pequeno que mal pode ver algo que ele próprio consegue criar, tão pequenino que tem a impossibilidade de enxergar a majestade da beleza, e quando esse falso soberano vê uma coroa nitidamente mais ornamentada que a sua, ele a xinga e proclama que ela não passa de uma coroa que é ostentada por efeminados e loucos, pois quando o homem comum vê algo superior ao seu senso comum não tem a capacidade de sair do seu trono de madeira para admirar um trono de prata, e reconhecer a sua superioridade em relação a madeira, a prata é a arte que permeia o mundo dos artistas, esta prata ecoa e afeta tudo e todos que estão ao seu alcance, tal metal precioso é tão bem polido que reflete a beleza e a essência de tudo que esta ao seu redor, mesmo os tronos mais ricos e ostentados tem a sua riqueza e imponência espelhados pelo trono da arte, tal trono, mesmo quando reflete a madeira dos homens comuns, é ignorado pelos mesmos, pois os tolos pensam que tudo que ultrapassa o valor da madeira é um embuste para com as suas próprias vidas.
Existem várias obras-primas no campo da poesia, estas são as "provas" da importância e da profundidade que elas tem no mundo, a poesia é bela e cativante, encantadoras em todos os sentidos e possibilidades, nela se expressa o bem e a beleza que o homem pode proporcionar e transferir em palavras, porque é nesta que se encontra a importância do viver e do saber.

Eis alguns poemas que transmitem isso:
As três coroas, de Guilherme de Almeida.
Numa sala de museu, três coroas conversavam. A que era de ouro disse às outras:
Eu pertenci a um rei, e curvei meu rei como uma pluma com o peso bom das minhas jóias tutelares.
Tive um reino a meus pés, com soldados, teares e torres brancas e altas como luas, e searas mais maduras, mais louras que o sol, e navios enormes como os templos de Deus e os palácios dos homens.
Fui tudo. Rica, poderosa, bela... Tive um rei a meus pés e o céu sobre nós dois.
Depois, pesei demais para a cabeça velha do meu rei e cai. Então, puseram-me aqui.
A segunda coroa, a de louros, falou:
Nasci na Grécia, fui o gênio verde que abençoa e inatingível como uma promessa, gesticulei na porta viva do meu loureiro chamando os poetas e os heróis do mundo inteiro. Junto a mim, sobre a copa redonda e alta, eles cantaram e lutaram, estenderam-me os braços e passaram...
O amor passou também com flautas e com danças, e o amor ergueu também seus braços para os meus.
Nem sei qual foi a mão que me colheu, porque logo murchei...
Então a terceira coroa, a coroa de espinhos, disse às outras:
Vivi só, sempre só, escondendo venenos sobre o pó. Mas um dia, enrolaram-me na cabeça de um homem que era belo, bom e puro como o fogo... E sofrendo e sofrendo, ele morreu comigo...
Então fiquei sabendo que eu valho tesouros e tesouros, mais que as coroas de ouro e as coroas de louro, porque eu coroei os reis e os heróis, eu coroei todos os homens, e ainda não murchei...


"As três coroas" é um poema que exemplifica, muito magnanimamente, um tipo de poesia que exorta o espiritual do homem, tal poema consegue exprimir algo mais do que o homem, mas que o mesmo consegue transmitir em forma de poema, pois não é algo que vem do humano, é algo muito superior, que foi dado à humanidade para que conseguisse transcrever um pouco da beleza de Deus que existe para além desse mundo, tal espiritualidade não pode ser descrita de forma melhor se não no campo das artes, pois nelas é que nos foi dado o poder de expressar a nossa essência, essência esta, que é maior do que a carne.

Os Mapas, de Jorge Luís Borges
...Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa duma Província ocupava uma Cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira. Com o tempo esses Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedades entregaram-no às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas

Este é um exemplo de poema que é possível livros inteiros de filosofia a partir dele (realmente existe um livro inspirado neste poema, chama-se "Simulacros e simulação", de Jean Baudrillard), porque ele trás uma proposta filosófica para o mundo a sua volta, tal poesia apresenta "problemas" para a filosofia. O texto retrata um império que era perfeito na cartografia, e para chegar a tal perfeição se fez um mapa do império milimetricamente perfeito com o mesmo, ora, desenhar um mapa é estar fazendo a simulação da região em questão retratada no mapa, e chegou a um ponto, que a simulação da realidade foi tão fortemente aplicada, que a própria realidade foi coberta pela simulação, com tal poema pode-se fazer questionamentos inteiros de como a sociedade funciona, isto é, tem-se a possibilidade de apresentar problemas a sociedade humana, que é composta de várias simulações de realidade. Mesmo que tal pensamento filosófico seja questionável, ele apresenta-se como um "problema" filosófico em relação ao homem, e tudo isto em um poema pequeno e simples. Eis o poder da arte da poesia.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Noções sobre o absolutismo político

"A liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro. Quando se concorda nisto o resto vem por si" (George Orwell). 

Parece que o Estado existe para nos servir, sustentar a sociedade, defender, atender, criar leis de acordo com a mesma, ordenar para o bem da própria e prestar serviços básicos igualmente para cada cidadão de bem dentro da sociedade que o criou, em teoria, o Estado existe para isso, órgãos estatais e membros da política ganham poder para ser empregados da sociedade que os sustentam com seus impostos, não existe problemas em um estado republicano, federativo ou monárquico desde que este cumpra com o papel de cuidar da população a quem este serve, de fato, na monarquia, tais cuidados são divididos entre a sociedade plebeia e os nobres, todavia, neste caso, os lordes ainda tem que prestar os mesmos serviços que líderes de uma federação ou república devem para com o povo de seu país, tais trabalhos não limitam-se a segurança, educação e tão pouco apenas empregos para que os cidadãos possam ter o seu sustento (2ª Carta aos Tessalonicenses: 3,8), o principal dever dos líderes políticos de uma sociedade é garantir os direitos invioláveis do indivíduo que pertence ao coletivo que forma a sociedade em pauta, todos os cidadãos de bem tem os mesmos direitos, alguns terão mais vantagens financeiras do que outros por causa do seu trabalho, alguns terão vantagens por causa de heranças de família ou doações de amigos, outros terão pouco dinheiro, e por conta disso menos chances na sociedade, mas isso não significa que o mais pobre ou o mais rico devam ter vantagens ou desvantagens legais para alcançar suas metas financeiras. Em suma, o Estado não pode ser autoritário e muito menos totalitário para com os seus próprios cidadãos, ele não pode apresentar este tipo de absolutismo em relação a sociedade, pois a sociedade é quem manda no Estado, e não o oposto.
Carlos X distribuindo os prêmios no Salão, de François-Joseph Heim
O poder estatal não pode querer controlar arbitrariamente, de qualquer modo que seja, a sociedade que o compõe, pois isso caracteriza uma autoridade que o Estado não deve ter, o Estado não pode controlar a vida do indivíduo ou se quer tirar os direitos que este tem para o fortalecimento do Estado, um país que proporciona uma vida de regalias aos seus comandantes políticos ou militares pelo simplório fato de serem empregados da nação é um disparate para com a ordem que a política deve seguir de acordo com a lógica que é implementada em um governo justo e bom. O controle estatal radical, seja ele de qualquer tipo, é um perigo para com a liberdade individual do homem e seus direitos sagrados que por natureza ele deve ter, em várias ocasiões na história o poder do governante transcendeu a própria convicção de governador, em tais ocasiões a ideia do governante e do Estado passa a ser sinônimo de uma autoridade moral, cultural, legislativa e judicial inquestionável e intransponível, isto ocorre quando o governante, ou um grupo de pessoas que deseja o poder, corrompe aos poucos, toma de imediato ou constrói ideologicamente uma concepção absolutista de política estatal, na maior parte dos governos existentes na humanidade, tal absolutismo é evidente, porém, não era criado esse poder absoluto com propósitos essencialmente maus, em várias culturas e épocas chefes de tribos, Reis, Imperadores e etc, eram vistos como soberanos incriticáveis, contudo, nas condições econômicas, regionais, e sobretudo culturais na época praticamente moldaram tais tipos de governos, criticá-los com um pensamento contemporâneo é um erro (um anacronismo), mas um governo contemporâneo que utilize de leis diretas ou indiretas que prejudiquem uma parte, ou toda a sociedade, deve ser encarado como um governo corrupto e incompetente para servir a população do mesmo.
A ordem moral de uma sociedade não deve ser criada por um governo que seja contrário a mesma, pois se assim for feito causará vários problemas legislativos e, consequentemente, judiciais para com o país, a constituição terá que ser mudada e toda a ordem e noção de democracia, isto é, bem,  justiça e verdade pelas mãos do governo, e se isto for feito, com a notória desaprovação da sociedade, o estado e seus governantes estarão sendo atuantes de uma ação extremista e autoritária, invertendo a ordem de poder e criando assim uma ditadura, mesmo que existam eleições regulares e normais na nação a mesma irá ditar as regras para uma sociedade que é contrária a ela, esse fato não significa que se a sociedade (a maioria dela, conforme a cultura popular dominante) é contra algumas leis especificas e o Estado não venha muda-las, que o Estado é automaticamente um estado tirano, gritos populares contra algum ato legislativo sempre serão comuns em democracias, entretanto, a inversão total de certos valores sociais, logo, culturais, por meio de leis é um ato agressivo e danoso para a mesma sociedade. Se existe alguma grande controvérsia entre os líderes do país e a população deste, ou a população converte democraticamente o Estado, ou o Estado atua de maneira arbitrária com seus poderes contra a sociedade, isto é, intervindo diretamente na educação paternal se esta for contra princípios ideológicos, filosóficos, religiosos e até mesmo anti-religiosos defendidos pelo Estado, isto é um ato que danifica diretamente os direitos indispensáveis para que o cidadão de bem possa viver com decência e justiça dentro de uma pátria.
Os flagelados, de Carl von Marr
A ocorrência, de alguma forma, de um aumento no poder estatal é um perigo imediato para a sociedade, pois ele que irá controla-la e será de acordo com as vontades de seus governantes que pela lógica, já que dominam o Estado, terão um poder absoluto em relação aos tribunais e na criação de leis, sinais de ditaduras são as criações de leis por decreto que praticamente dão aos seus criadores poderes políticos infinitos e uma soberania inquestionável para exercer o seu posto, exemplos históricos não faltam em relação a isto, nações que antes eram democráticas e que depois, por meio de um golpe de estado ou por uma lenta infiltração de algum partido no poder, caíram nas mãos de governantes que utilizaram do Estado para adquirir poder, ou que também, com o passar dos anos aumentaram o poder do Estado para que pudessem acender com um absolutismo estatal. Os prejuízos que a população tem são inúmeros, porque quando se perdem os direitos mais essenciais para o exercício da cidadania, quase que nada, além da força popular, pode conter o avanço da tirania política instaurada no país, e além disso, tais censuras a liberdade podem causar algo que, a longo prazo, pode desarmar a população e impossibilitar uma revolta popular para o abraço da democracia novamente, pois se o Estado é inimigo da Sociedade, ele também será inimigo de manifestações e formadores culturais que exaltem e estimulem a liberdade para a mesma.
A perseguição dos geradores de cultura que sejam contra ao absolutismo que o Estado terá pode ser feita tradicionalmente, com propagandas caluniosas, fechamento de instituições, censura na imprensa, censurar livros, prisões de integrantes destas instituições que continuam praticando a pratica proibida em questão, proibição de certos hábitos culturais e tradições, controle nas escolas para a lavajem cerebral das crianças, controle dos meios de comunicação e etc, ou pode-se se fazer lentamente por jurisprudência, antes mesmo do Estado entrar em uma ditadura, proibir hábitos comuns e essenciais para a liberdade aos poucos através de ameaças judicias é mais efetivo se o Estado não quiser revoltas internas por parte da sociedade, manipular desonestamente a cultura com chavões e falácias sobre algum aspecto que um grupo que pretende dominar, a liderança, do meio político é contra pode ser uma mudança cultural que ajude a implantação de uma ditadura com a desculpa de que se esta fazendo a vontade do povo retirando as liberdades do mesmo (deve-se lembrar que Adolf Hitler foi eleito democraticamente). Neste caso parece que o governo absolutista esta a favor da sociedade, mas fazendo isso ele cria minorias na sociedade, trazendo o grosso da maioria para o seu lado, ele consegue, quase que sem problemas, esmagar a minoria tirando os seus direitos, isto o torna um governo que persegue as minorias que discordam dele, sem dar a elas direitos para se expressar, minorias essas que não propagam o ódio ou a matança, minorias estas que pertenciam a cultura destruída pelo Estado, mas mesmo a parcela da sociedade que não pertence as minorias terá os direitos cancelados, os mesmos direitos que as minorias tem cancelados, pois se alguém da maioria pensar diferente, será tratado como inimigo público, pois a liberdade de pensamento e expressão foi vetada pelo Estado.
Pode-se prevenir e impedir tais abusos pelo Estado diminuindo a força dos políticos e do próprio Estado mediante aos agentes culturais que já existem na sociedade, como por exemplo, escolas, universidades, instituições acadêmicas, igrejas, a educação familiar, instituições culturais e humanas sem ligações com o Estado e pela pluralidade de ideias correndo pelos meios midiáticos e acadêmicos na sociedade em questão, pois com esses meios é possível criar a elite intelectual do país, que será uma parte dos formadores de opinião da nação. A total separação do executivo, legislativo e judiciário é vital para o enfraquecimento do poder estatal, e a noção sobre a ética nas leis comportamentais também deve ser debatida, com acesso ao público, por representantes das respectivas partes para que exista uma justa decisão e também, devem existir leis que proíbam o Estado de interferir de maneira arbitrária na sociedade, pois não é um direito do empregado interferir na vida do patrão sem a autorização deste para tal, deve-se sim, interferir em caso de crimes, mas não deve-se tornar um crime algo sem ser se quer debatido nos meios políticos com a intromissão da sociedade e dos seus agentes culturais nestes meios.
Por fim, queria citar uma frase da Baronesa Margaret Thatcher, a Dama de Ferro, Primeira Ministra do Reino Unido (primeira mulher a ocupar este cargo), durante uma entrevista para a revista Veja em 1994, quando indagada sobre o Brasil, proferiu essas sábias e verdadeiras palavras: "Parece-me bem claro que o Brasil não teve ainda um bom governo, capaz de atuar com base em princípios, na defesa da liberdade, sob o império da lei e com uma administração profissional. Bastaria um período assim, acompanhado da verdadeira liberdade empresarial, para que o país se tornasse realmente próspero".

domingo, 1 de julho de 2012

Noções sobre o absolutismo intelectual

"Enfim, ou o bem é absoluto ou o mal o é. Se o bem é absoluto, esta sua condição elimina automaticamente um provável estado absoluto do mal" (Hideraldo Montenegro).

Pescador ao Mar, de William Turner
O relativismo radical não é o único problema relativo a filosofia que existiu na humanidade, embora esse mal afete bastante a atual civilização, ele, talvez, ainda não fez o estrago que o absolutismo radical filosófico fez na história da humanidade, deveras, muitas vezes, ele se mostrou como um oceano escuro e sem vida que ameaçava qualquer centelha de luz que desafiasse a imensidão de seu poder, na política, muitas vezes, usava-se de noções absolutistas de poder, inegáveis e incriticáveis para manter uma ordem de poder vigente inquestionável e acima de qualquer um que ousasse contestá-la, muito embora tais tempos sejam antigos e, portanto, passados, não estamos a salvo de algo que permeia a humanidade desde seu início civilizatório, isto é, a sede pelo poder, tal sede não necessariamente tem que ser saciada com um poder político, mas também pode ser com um poder intelectual, que se apodera dos outros pensamentos existentes. Absolutismos são evidentes atualmente também, embora ele esteja crescendo de uma forma peculiar, através do relativismo, a devastação que ele pode causar, tanto em termos políticos quanto em termos intelectuais, ainda é grande. Se analisar bem as prováveis consequências do absolutismo intelectual, as inovações ocorridas no controle social moderno, são bem piores se compararmos aos absolutismos passados (me refiro ao detrimento na filosofia no séc. XVII, séc. XVIII, o desgaste ético na ciência no séc. XIX,  e no início do séc. XX), alguns até, foram os responsáveis pelo surgimento e aprimoramento de tais controles, como o Fascismo Alemão, Japonês e o Comunismo no séc. XX.
De fato o absolutismo político é diferente de um absolutismo intelectual, todavia, o intelectual pode criar noções de política que podem ser danosas para o futuro, mesmo que ambos os absolutismos tenham semelhanças e se estrelassem para a construção de uma ordem governamental, os dois tem diferenças cruciais que devem ser apontadas, a primeira é que o absolutismo político não visa, muitas vezes, um bem maior para toda a humanidade ou a civilização e sociedades tratadas, e sim para uma única, ou um grupo seleto, de pessoas sedentas de poder, pode-se utilizar de um argumento racional-filosófico que justifique a acensão incisiva deste(s), no entanto, a argumentação que apoie algum tipo de governo absolutista não é necessária de imediato, isto se deve pelo fato de que o governante absoluto pode ter permanecido ou entrado no poder mediante a um Golpe de Estado, logo, não é necessário um pensamento que o defenda racionalmente, pois ele pode utilizar a força estatal para permanecer no poder e sanar as críticas. A segunda é aquela que muitas vezes pode definir a neutralidade, ou honestidade, intelectual do pensador, porque ela é dependente das intenções do pensador em publicar e difundir o seus pensamentos a respeito da filosofia em geral, ou da política, muitas vezes, o filósofo não tem a intenção de criar uma base para um sistema absoluto político, pois suas análises não saem da esfera filosófica, todavia, se elas, futuramente, vierem a servir modelos absolutistas e autoritários, não estará na culpa da pessoa que criou estes pensamentos, pois não havia tais intenções nela.
Noções absolutistas na filosofia são tão perigosas (ou mais, dependendo dos casos) quanto a relativista, pois ambas tem o poder de estagnar o progresso cultural e intelectual que uma sociedade possui, isto ocorre porque no nome de uma verdade maior ou de um bem, que se acredita ser inquestionável ou indiscutível, tal pensamento mata a essência da filosofia e impede o progresso da mesma, pensar que algo é literalmente indiscutível é quase que um pensamento que deve ser negado indiscutivelmente. A crítica e o ceticismo de alguma posição é essencial para o progresso da mesma (ou para o regresso se esta estiver no erro), isso é notado e comprovado por todos os filósofos antigos, medievais, alguns modernos e alguns contemporâneos.  Na Suma Teológica, de S. Tomás de Aquino, na República de Platão, no Livre Arbítrio de Sto. Agostinho e etc, sempre se é tratado de um tema reconhecendo a possibilidade de que estes estivessem errados,  pensavam e repensavam para ver se existia algum erro neles, antes de formular suas doutrinas e convicções precisavam passar por isso.
Com efeito não significa que toda e qualquer premissa, doutrina, lei, ordem, postulado, e metodologia, por ter na essência de sua existência argumentativa a afirmação de que ela é verdadeira, seja um absolutismo hediondo e agressivo. A filosofia é, até que se prove o contrario, é a mãe das matérias e do progresso da ciência do homem, tal progresso foi feito por Sócrates que em suas afirmações encontrava-se a alegação de que só podemos chegar a verdade se, antes disso, refletirmos sobre os nossos próprios pensamentos e as nossas próprias pessoas, tal coisa é uma verdade absoluta em sua essência, pois ela já foi (e é) repensada e comprovada várias vezes e de inúmeras formas por várias gerações de filósofos depois de Sócrates, todavia, ela não é inquestionável, porque dentro da mesma existe um espaço para questionar o próprio pensamento de questionar, isto não a faz ser uma imposição incisiva absolutista mas sim uma verdade absoluta que permite ser questionada pelo homem. Diferente de algumas afirmações agressivas e que impõe certas linhas de pensamento ao pensador, a filosofia clássica é aquela que, além de provar que existem verdades absolutas a serem seguidas, explica que para chegar a elas é preciso muito questionamento e reflexão por parte do filósofo que tenta alcança-la, deveras, a filosofia clássica não nasceu para criar imposições arbitrarias e inquestionáveis, mas sim para colocar uma ordem no pensamento humano para buscar a sabedoria (ordem esta criada pela própria sabedoria), logo, agredir um filósofo que acredita na filosofia clássica e em seus avanços na Idade Média e no começo da Moderna, é um ato absolutista incisivo, pois se condena a própria filosofia que tem como proposta deteriorar e acabar com falácias e desonestidades intelectuais (sofismas), desonestidades essas que se manifestam no discurso absolutista e relativista, pois ambos bebem, muitas vezes sem notar, da fonte da Paralaxe Cognitiva, fonte essa que desativa o senso crítico do sujeito e o faz criar pensamentos, que para o próprio, são inquestionáveis.
Os próprios bebedores da fonte utilizam do mesmo discurso para atacar aqueles que os criticam, no caso dos absolutistas, provavelmente acusariam os filósofos de hipócritas, porque segundo a filosofia clássica existem verdades absolutas, mas a noção de absoluto do filósofo é diferente demais da noção do absolutista, pois dentro da filosofia existe espaço para o ceticismo sudável e abundante, os problemas que existem dentro da mesma são a prova de que ela passa por várias críticas e diversos questionamentos para que se chegue a verdade sobre algum ponto em questão, porém, aqueles que se afastam dela, e isto se verifica pela carência filosófica que existe nos filósofos modernos e contemporâneos dentro das questões sobre a honestidade e a própria lógica simples. Obras como a de Nietzsche estão repletas de contradições, não com a lógica, mas sim com a filosofia em si, de tanto absolutismo que o relativismo em suas obras tinham, no final, existiam contradições aberrantes em seus escritos. Em suma, o absolutismo perigoso não é algo que simplesmente é ditado como verdade absoluta, o absolutismo perigoso é o ato, antes de tudo, de dizer que tal verdade é inquestionável.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A honestidade dos pensadores

"A honestidade é elogiada por todos, mas morre de frio" (Juvenal)

Muito já foi dito aqui sobre a honestidade que os filósofos precisam ter para serem os mesmos, até uma constatação da dificuldade de ser honesto com sigo mesmo foi relatada em meus textos (os textos são: Um pouco sobre falácias, Os Senhores do paradoxo, Ler e pensar, pensar e ler..., Como conhecer algo novo? e  O Conhecimento e quem o procura ), mas é preciso que esta noção seja mais bem tratada. Textos separados tratando de algum tema que interfira neste, da honestidade que é intrínseca a filosofia, não explicam completamente a dependência da filosofia para com esta, pois em meus textos, fiz referências a certas particularidades, como por exemplo, no caso dos sofismas e filósofos, no entanto, mesmo estas referências, necessitam de uma análise mais profunda e satisfatória. Os pensadores precisam ser mais honestos com o seu próprio ser, e com a própria realidade a sua volta, ou seja, ele não pode criar uma falsa noção de realidade propositalmente para satisfazer alguma convicção própria do mesmo, para isso, é preciso utilizar a razão, mas para o uso completo e puro dela, é mais necessário ainda, ter a honestidade em seus pensamentos.
O Filósofo Lendo, de Jean-Baptiste Chardin
Como todo aquele que ama a sabedoria, deve, na essência de seus estudos e pensamentos, a honestidade, isto não se deve, com efeito, a uma mera questão de linha filosófica diferenciada ou de doutrinas filosóficas, isto é a filosofia em si, ela nasceu assim e isto é uma das essências dela, e a sua maior base. Embora, para muitos, isso poça ser algum tipo de imposição por parte de alguns filósofos, contudo, a crítica sincera e bem formulada é bem aceita dentro da filosofia em si, isto é, dentro da proposta da filosofia dês da sua fase clássica com filósofos da cultura helênica há milênios, e a aceitação de tais críticas ou o respeito à elas (algumas) é algo de importância primordial para a mesma, não deve-se censurar uma crítica, mesmo que ela seja proferida por um sofista, pois não necessariamente, ela seja, também, um sofismo.
Muito embora seja demasiado fácil falar e explicar sobre a honestidade que um pensador deve ter, não é com a mesma facilidade que se executa estes pensamentos, o problema geral deve-se pelo fator hipocrisia que todos os homens tem, tal fator é inerente nos nossos seres, ele surge quando a oportunidade de fazer algum tipo de mal surge também, ou seja, quando uma pessoa, vendo que algo está ocorrendo de errado em seu meio ataca o mesmo, no entanto, a mesma pratica o erro em sua vida. Um grande exemplo seria a mentira, em suma, ela é detestada por todos e é um ato covarde e desonesto mas, ao mesmo tempo, ela é praticada, ou já foi praticada em algum caso específico, por todos nós para nos livrarmos de alguma consequência justa para as nossas ações, a mentira é, porém, algo que não está na natureza do homem, que busca a verdade com toda a alma, pois se estivesse, a verdade não seria algo de tanta importância na vida do homem, e nem a universalidade das ciências seriam desenvolvidas se a mentira estivesse na essência da humanidade, por isso a mentira é ruim, porque ela foge do ser humano, se a mentira é algo que causa anomalias em nosso ser (os mentirosos, são, por consequência, pessoas de mal-caráter e existe sempre um problema na convivência com as mesmas, em qualquer cultura humana) ela precisa ser combatida com uma determinação superior a de mentir, uma pessoa que combate a mentira, é uma pessoa que combate um erro que perturba a essência dela, portanto, é uma pessoa que quer encontrar a verdade e se libertar do erro.
Um pensador deve ter em mente que os erros são os frutos das limitações existentes no próprio ser-humano em largar a bondade e seguir aquilo que o seu próprio pensar o leva a seguir, mas se o próprio usar o mesmo pensar para abandonar radicalmente os erros, os erros, e a própria desonestidade, estarão longe para atrapalhar os seus pensamentos, tal virtude deve ser diferenciada da hipocrisia, pois, o hipócrita, além de tudo, ataca um ato que o próprio faz, seja em segredo, ou seja em público, diferente do hipócrita, o filósofo, por fazer o exercício da revisão dos seus atos para corrigi-los, ou confirmá-los, pois a revisão gera, em vários casos, um aprofundamento para o pensamento do mesmo, por conseguinte é uma falácia utilizar o argumento de que alguém, ou um grupo de pessoas, é hipócrita porque combate algo, faz o ato que combate, mas combate o erro dentro de si próprio.
O Astrônomo, de Johannes Vermeer
A maiêutica socrática (a base de toda a filosofia) é a prática mais honesta que existe para algum pensador que deseje entrar em algum outro campo, ou outra área, ela, se mudarmos certos pontos, para cada faculdade em questão, aplica-se em todas as ciências existentes, pois, ciência sem filosofia, transforma-se em algo que é nocivo para o homem, pois é utilizada sem ética e tem princípios sofistas em seus firmamentos teóricos iniciais, um pensador pode ser, além de um filósofo, um artista, um músico, um matemático, um engenheiro, um físico, historiador, médico, mecênico, poeta, arquiteto, biólogo, geógrafo, astrônomo, jornalista, economista, empresário, etc. Se em alguma faculdade da universidade das ciências abandona a filosofia, a mesma, cai por terra a longo ou médio prazo, não que ela deixe de existir e que a matéria intelectual acumulada seja perdida em algum evento que ocorre por causa da carência da filosofia, mas o bem para o homem será substituído pela a autoridade do mesmo para fazer o que ele quer com os seus próximos e com a humanidade em geral, em suma, a filosofia necessita da honestidade, por este motivo, que as ciências em geral necessitam da filosofia.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A filosofia é necessária

"Todos os homens, por natureza, desejam saber" (Aristóteles)

Uma preciosidade tão grande, uma mãe tão poderosa, uma beleza tão cativante, uma essência tão bela e uma razão tão magnífica, isto é oque a maravilhosa e superior modernidade deixou para trás, deixou-se, pouco a pouco, de lado, a mãe das ciências, a filosofia.
Muito, devido a ignorância, é questionado sobre a utilidade da filosofia, e o por quê dela ainda existir na modernidade, isto, evidentemente, é dito, de maneira geral, pelo "povão" que pouco, ou nada, entende sobre oque é ser um filósofo e como a filosofia ajuda em nossas vidas, seja em questões profissionais, sociais, econômicas, políticas ou pessoais, tais pessoas não compreendem como ela desempenhou, e desempenha, um papel colossal na Civilização Ocidental, e, por consequência, em suas vidas pessoais. Um ótimo exemplo disso é a política, não só no meio governamental do Estado, mas também dentro da casa das pessoas, dentro do diálogo de marido e mulher, pais e filhos, existe uma lógica, portanto, existe uma filosofia dentro de casa, que, sem noções geradas por ela, a estruturação da sociedade e do Estado atuais seria impossível, talvez, até mesmo o diálogo seria um ato impensável.
Rua parisiense, dia chuvoso, de Gustave Caillebotte
Pouco se entende, pois pouco se explica, de filosofia no caso das massas em geral, entretanto ela está impregnada na sociedade em todos os níveis (embora não esteja como deveria estar em todos os níveis...), mesmo não sendo incentivado a instigação ao estudo da filosofia pela mesma, isto se deve pelo fato de que a filosofia incentivou muito a cultura helênica e a cultura romana, tal incentivo foi feito também na cultura da Europa medieval depois da queda de Roma (embora tenha sido difícil espalhar tal cultura por causa das invasões bárbaras no início da Idade Média, os monges copistas conseguiram espalhar bem a informação, uma parte dela, chegando até, aos monarcas, como por exemplo, Carlos Magno), e na Europa é que foram criadas as universidades, nelas, o estudo dos grandes filósofos clássicos (os textos destes foram perdidos durante a queda de Roma no Ocidente, mas na Roma oriental, o Império Bizantino, eles ainda continuaram, e depois, foram transmitidos à cultura Árabe, durante as invasões islâmicas às nações cristãs da África e Ásia, durante as Cruzadas para a África, Ásia e as reconquistas ibéricas por parte dos cristãos ocidentais, a maioria dos textos foram re-transmitidos ao Ocidente), foram estudados, e uma grande evolução na filosofia foi dada por São Tomás de Aquino no Ocidente Europeu. A Civilização Ocidental foi cada vez mais influenciada pela filosofia grega e sua lógica, criando assim, estudos sobre a economia, artes, política, direito, gramática e ciências em geral, a lógica, servil até, para criar o metodologia científica moderna (o correto, seria metodologia Antiga, pois a noção dela veio com a filosofia da Antiguidade), que sem ela, muito provavelmente não haveria a primeira revolução industrial, na Idade Moderna, porque o pensamento para investigar novos campos e áreas da ciência não existira, a própria noção de experiência não existiria. Embora o Cientificismo Empirista, seja um sofisma por si só, para a criação do método (o método científico em si não é um sofisma, mas o cientificismo empirista, se analisado profundamente, é um sofisma) foi necessária uma lógica clássica, lógica essa que foi criada pelos filósofos gregos.
A filosofia é a mãe das ciências, pois foi com ela que a ciência pode se desenvolver como ela deve ser, isto é, a análise racional do Universo, e é com ela que as ciências encontram o seu propósito e fundação, sejam elas ciências exatas, bio-médicas, do campo da física e da química ou humanas, as suas estruturas e bases são inteiras definidas por noções e convicções filosóficas para que elas levem à algum propósito realmente bom para o homem, retirando a filosofia da ciência, ela cai inteira em sofisma, e a sua essência passa ser oque é proveitoso, não para o bem comum ou a verdade, porém, para um bem de algumas pessoa e para uma "verdade" subjetiva e desonesta, isto é, para um ato mal e desonroso, um exemplo disto seria a ciência utilizada em campos de concentração da Alemanha nazista.
A verdade pode ser sim alcançada pela razão humana, embora seja difícil e trabalhoso alcança-la, a impossibilidade de te-la seria uma contradição da própria impossibilidade de te-la, com a razão se consegue chegar a ética e a moral, e com ela, consegue-se criar direitos invioláveis, noções de propriedade, noções de mercado, noção de Estado, de individualidade, família e de liberdade (A política de Aristóteles trata dessas coisas). Tais noções só são perdidas se o pensamento sofista entrar em cena e bagunçar a ordem racional existente com  noções, sejam relativistas ou absolutistas, que dão e tiram direitos arbitrariamente, da população em geral, ou de um grupo seleto de pessoas, tais coisas só causam a estagnação da razão e destroem a ordem natural e racional dos sistemas. 
A filosofia é, sem nem uma dúvida, a matéria mais necessária em todos os ramos da ciência e do relacionamento humano, pois sem ela a lógica e a ordem são corrompidas, e a sociedade, em todas as camadas é fragmentada e desfigurada em um monstro que devora e consome a liberdade, o amor, a razão, os direitos e o livre pensamento, pois uma sociedade que deixar de lado a filosofia (como a França revolucionária, em alguns períodos, a Alemanha Nazista, os regimes absolutistas, as ditaduras comunistas, autoritarismos religiosos inquestionáveis e as ditaduras em geral), mesmo que ela pense que não a deixou só porque tem alguns filósofos como base (um exemplo disso seria a União Soviética, eles tinham como uma  das bases filosóficas São Thomas More, um mártir católico inglês, eles o tinham por causa do seu livro A Utopia, porém só o tinham por algumas conveniências ao pensamento marxista, não pela filosofia em si, que ele pregava), ela será uma sociedade com uma política totalitária, corrupta em seu mais auto grau, aonde a corrupção vira justiça e virtude e alienará a sua população. Por isso, precisamos da filosofia, por isso ela jamais deve ser considerada obsoleta e dispensável.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Um pouco sobre as falácias

"É preciso ir à verdade com toda a alma." (Platão)

Filósofo meditando, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn
Em meu último texto fiz uma referência a um tipo de falácia utilizada pelos sofistas para ganhar algum debate (veja no meu último texto: Os Senhores do paradoxo), naquele caso, apresentei uma falácia relativista, isto é, a de que não existem, verdades, certezas ou algum absolutismo no mundo, esse tipo de falácia, porém, não é a única existente, existe uma lista grande de falácias, é claro, que pelo seu tamanho não irei colocar todas, e existem muitos tipos de casos aonde elas são e elas não são falácias, com por exemplo, o famoso argumentum ad hominem (em Latim, argumento contra a pessoa), ele é um sofisma quando os dois debatedores estão debatendo ideias, e um, decide fugir da proposta de contra-argumentar somente os argumentos, e passa a atacar a pessoa que profere esses argumentos (vou falar mais sobre o argumentum ad hominem no decorrer do texto), porém, ele não é falacioso se os dois debatedores estão debatendo sobre as suas pessoas, pois aí elas estariam dentro da premissa lógica do debate proposto. 
A falácia, no entanto, não é uma coisa única e exclusiva do sofista, ela pode ser também um erro de pensamento de qualquer filósofo, todavia, se uma falácia vem de um filósofo, esta, por obrigação, é uma falácia não-proposital, sem nem uma intenção desonesta, de levar alguém ao erro ou, também, não ser levada a sério (e propagada) pelo mesmo, se, em seus pensamentos atuais ou anteriores levarem a o próprio crer que aquilo que pensa é uma falácia. Nem todas as falácias são propositais, algumas, entretanto, não passam de meros erros desapercebidos ou erros por falta de experiência (ou prática) daquele que a usa em um debate ou em uma afirmação filosófica, mas, como disse Platão, "é preciso ir à verdade com toda a alma", isto é, com toda a essência de seu ser, com toda a sua vontade, força e espírito e isso é oque levará o pensador honesto para longe das falácias.
O triunfo da justiça, de Hans von Aachen
A pessoa que tem a virtude da  justiça odeia a injustiça, e dos argumentos utilizados para propagar a mesma, logo, a pessoa que é justa de coração e mente deve abandonar o sofismo e as contradições dentro de si mesma, e isso inclui as suas convicções essenciais e existenciais. O Justo, deve prezar a filosofia em seu mais profundo significado original (Sócrates) e usá-la para buscar e conhecer a verdade, e somente a verdade, para o bem de si mesmo e para o bem comum, o filósofo, não é aquele que, por incentivos titulares ou monetários, busca a verdade, o filósofo busca a verdade por ser filósofo, por ser um humano. Aqueles que são movidos por títulos acadêmicos, dinheiro ou mesmo o reconhecimento histórico, são aqueles que cairão na desgraça do sofismo e utilizarão as suas falácias (falácias essas que se parecem muito com um pensamento honesto) para ter tais títulos, horarias, dinheiro e etc. Os que conseguirem se sobrepujar perante tais futilidades, conseguirão ser oque querem ser, conseguirão ser aquilo que realmente definem ser, de acordo com a sua origem, serão filósofos.

Existem variadas formas de falácias, detre elas vou destacar algumas e dar uma explicação delas e o porque delas serem erros de lógica e desonestas:

Apelo ao ridículo: A apelação ao ridículo (não confundir com o reductio ad absurdum, de Aristóteles) é, sem mais delongas, a simplória afirmação de que o argumento em questão é ridículo, mas sem provas ou argumentos que comprovem que tal afirmação seja ridícula.
Exemplo:
-" O homem é um animal político
-"O homem é um animal político? Isso é ridículo!"

Apelo à pobreza (argumentum ad lazarum): A apelação à pobreza (muito usada atualmente...) é a defesa de uma pessoa, ou de um argumento dessa pessoa, só pelo fato dela ser pobre, no entanto, não tem só como referência a pobreza monetária, também pode ser a pobreza intelectual ou espiritual (o apelo à pobreza pode ser uma variação do apelo à emoção). Se a pessoa comete um crime, ofende ou diz algo errado, a apelação à alguma carência desta de algo, só por ela ter essa carência esta deve ser tratada como certa, e caso o outro argumentador seja mais rico em relação ao outro, este se torna errado só por causa de sua riqueza. 
Exemplo:
-"Aquela pessoa está errada, pois 3 + 3 não é igual a 8"
-"Mas essa pessoa é pobre, e por isso está certa"

Apelo à força (argumentum ad baculum): O apelo à força é um tipo de falácia que defende um ponto de vista de alguém só porque esse tem mais força do que você, ou seja, não é o argumento em si que define a veracidade de alguma questão, e sim a força do argumentador ou de algo que está em debate, como por exemplo, o Estado. 
Exemplo:
-"Os homens tem direitos que não podem ser mudados"
-"Se você continuar defendendo isso, você irá se arrepender, eu garanto!"

Apelo à autoridade (argumentum ad verecundiam): A apelação à autoridade é, e foi, muito utilizada na história da humanidade, talvez, a mais utilizada. Ela consiste em utilizar certa autoridade que alguém tem na área para validar algum assunto, porém, não é utilizado o pensamento da autoridade, e sim a pessoa da autoridade como validação.
Exemplo:
-"É um fato que o progresso científico, artístico e cultural medieval foi incentivado intelectualmente e financeiramente pela Igreja Católica, devido aos documentos encontrados e novos estudos mais bem-feitos sobre a Idade Média"
-"Isso não é verdade, pois existem vários doutores de história que afirmam que a Idade Média foi uma era de regresso cultural por causa do patrulhamento religioso feito pela Igreja"

Apelo à maioria (argumentum ad populum): Esta falácia não deve ser confundia em hipótese alguma com o sistema democrático, pois a democracia é um sistema político eletivo com o apoio da maioria, oque é diferente de uma falácia que define que a verdade é dependente da maioria das pessoas.
Exemplo:
-"Esse político não é um bom político, pois mente e está envolvido em desvios de verba pública"
-"Só que esse político ganhou este cargo por duas vezes seguidas, por isso, ele é um bom político"

Apelo à riqueza (argumentum ad crumenam): É uma falácia que utiliza da superioridade monetária do argumentador para justificar alguma posição, ato ou argumento do mesmo, ou seja, a razão sempre está com o mais rico.
Exemplo:
-"É errado julgar as pessoas, unicamente, por sua aparência"
-"Eu sou rico, posso julgar as pessoas da maneira que quiser por isso!"

Ataque ao argumentador (argumentum ad hominem): O ataque ao argumentador é uma forma de responder a algum argumento atacando a pessoa do argumentador, desviando assim, o debate em questão. Essa falácia, tem a principal intenção, de desviar a atenção de um debate, seja público ou privado, ela é utilizada para chamar a atenção de uma característica do argumentador para, assim, "ganhar" o debate, porém, ela também pode ter propósitos de invalidar o argumento do argumentador. O ataque ao argumentador é, deveras, utilizado como se fosse um ponto final em algum debate, apontando, ás vezes, algum erro da pessoa que tenha a ver com oque ela defende ou ataca.
Exemplos:
Exemplo 1
-"A corrupção é um mal que deve ser erradicado do nosso país"
-"Você é um político que esteve e está envolvido em vários escândalos de corrupção, você não tem moral para falar tal coisa!"
Exemplo 2
-"Nós devemos nos manter na paz para que não tenha sofrimentos desnecessários por causa da guerra"
-"O seu país já entrou em guerra antes, a guerra é boa"

Apelo à novidade (argumentum ad novitatem): É uma falácia que afirma que uma ideia, por ser mais nova ou atual, necessariamente é melhor do que uma ideia mais antiga e "ultrapassada". A apelação à novidade é seguir sempre as novas tendências, morais, ideológicas ou religiosas (ou até mesmo não-religiosas), renegando totalmente os antigos costumes, ideias e religiões só pelo fato de serem velhas. Também é comum (muito comum) dizer que algo, por ser novo, está mais certo do que algo que é antigo, pois, esta falácia superestima o novo e subestima o velho, logo, ela não tem nem uma análise profunda e coerente tanto do antigo quanto do novo, a comparação que é feita por quem utiliza desse tipo de falácia é muito superficial, portanto é fácil, para o sofista, "ver" essa suposta superioridade da novidade (escrevi dois texto sobre isso: Então vamos ser críticos e O novo, para o novo, é incriticável).
Exemplo:
-"Na natureza, o macho e a fêmea tem os seus respectivos órgãos reprodutores para multiplicar a espécie, logo, não existe fins na essência do homem para o homossexualismo"
-"Deixe de ser preconceituoso e alienado, estamos em pleno séc.XII, não estamos mais na Idade Média em que você vive!"

Apelo à tradição (argumentum ad antiquitatem): Da mesma forma que o apelo à novidade, a apelação à tradição não tem uma análise completa do velho e do novo, e sempre pressupõe que o antigo e o tradicional é o melhor do que o novo e recente, só por ser antigo e tradicional. Não tem nem uma explicação profunda e séria sobre o que é melhor, ou pior e tem sempre o tradicional como o certo, e o novo como errado. Essa falácia, é, também, bastante utilizada para defender alguma sociedade, padrão ou algum valor moral antigo, só que sem nem uma profundidade, por isso, é uma falácia.
Exemplo:
-"Eu comprei, recentemente, uma coleção de miniaturas de carros na banca, a coleção é muito boa"
-"A coleção não é tão boa quanto a minha, que tem 30 anos de idade"

Apelo ao preconceito (variação do ad hominem): A apelação ao preconceito é associar valores ou defeitos no argumentador, ou na questão a ser debatida como forma de colocar um ponto final no debate.
Exemplo:
-"O aborto é um crime, pois o feto, dentro da barriga da mãe, além de ser filho de Deus, é um ser-humano com vida e tem direitos a serem respeitados como qualquer outra pessoa"
-"Você é um religioso, você não tem capacidade racional de debater sobre isso, pois pessoas racionais não desaprovam o aborto"

Bulverismo: O bulverismo é uma falácia que pressupõe que o argumentador já está errado sobre a questão em debate, depois, tenta explicar o porquê do argumentador estar usando aquele tipo de argumento, em suma, é um ato desonesto de começar ou de dar continuidade ao debate, pois ele não responde o argumento com um contra-argumento. Normalmente quando sofistas utilizam de bulverismo não tem a capacidade de seguir um debate sério, pois ele simplesmente nega a veracidade, sem explicações, da proposta do outro.
Exemplo:
-"Se algo se move, ele é, ou foi, movido por algo, e não sozinho"
-"Isso é absurdo, você só está dizendo isso porque você acredita nas leis da física!"

Egocentrismo ideológico: Esse tipo de falácia, é, sem dúvida, a total incapacidade do sofista sair de um ponto de vista, ideológico ou de qualquer outro ponto de vista, pois ele afirma que o seu pensamento, ou crença (de qualquer tipo) está certa, utilizando argumentos dentro da própria, isto faz uma espécie de círculo, onde o sofista se sustenta.
Exemplos:
Exemplo 1
-"Se a Bíblia é o livro inspirado por Deus, que provas posso ter disso?"
-"A Bíblia é inspirada por Deus sim, pois segundo várias passagens nela, os escritores tiveram inspiração divina"
Exemplo 2
-"Por que o ateísmo libertaria as pessoas?"
-"Porque, nele, as pessoas não acreditam em deuses"

Apelação à nostalgia: O apelo nostálgico diz que algo é bom, ou certo, pelo mero fato de ter marcado alguma parte da vida do argumentador no passado, este apelo é usado, também, para justificar algo que, no seu passado foi visto como bom, mas com um revisionismo próprio se concluí que é ruim, para o sofista é bom só porque foi visto como bom no passado (normalmente na infância).
Exemplo:
-"Aquele programa de televisão, se olharmos bem, não é muito bom..."
-"O que? É claro que ele é bom, ele marcou a minha infância quase toda, que inteira!"