“À pergunta habitual: ‘Por que é que escreve?’. A resposta do poeta será sempre a mais curta: ‘Para viver melhor’” (Saint-Jonh Perse)
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| Cena de Interior, de Edilson Elio Barbosa |
Muito
se perdeu, em matéria de arte, durante o movimento modernista e contemporâneo
dentro da mesma, a harmonia, beleza e profundidade foram trocadas por
noções relativistas da beleza, algo que, segundo Aristóteles, é imutável e puro
dentro do Universo que nos rodeia, não só na natureza ao redor do homem tem
beleza, ou nas criações do próprio ser-humano, mas sim no próprio homem,
independente da estética ou do conceito de beleza que a cultura atuante tenha,
a beleza em si vai pra além da imagem, ou até mesmo das palavras, o belo é
maior do que a carne e a matéria, o belo é algo que transcende o nosso mundo. A
poesia é uma das formas de mostrar tal beleza, ela transfere para o papel sentimentos,
razões, crenças e também consegue transferir filosofias inteiras em
poucos versos, versos tão preciosos que o próprio ouro, em termos de
significância para gerações futuras, valeria pouco em comparação a estes
versos, neles também existe a transferência da beleza do universo natural para
o papel, as sutilizas e imponências que a compõem são
transferidas de uma maneira magnífica dentro de um bom poema, assim como o
pesar e a tensa realidade que existem dentro e fora do homem e da natureza,
a poesia é uma forma de viver aquilo que não se vive e de respirar aquilo
que não pode-se respirar, ela é uma das maiores conquistas que a humanidade
conseguiu, e ainda sim, sobretudo em tempos mais recentes e atuais, é sujada e,
em extremos, totalmente abandonada e estereotipada. Eis o
"bem" que a modernidade trás consigo.
Na poesia a humanidade pode conhecer-se melhor em seu íntimo, nela, sobretudo, pode-se fazer a considerada impossível ligação entre a razão e a emoção humana, ela liga as duas partes essenciais do homem, hora servindo uma, hora servindo outra, mas ainda sim usando as duas para compor a obra em questão. Ligando o sentimento com o pensamento o poeta pode ser mais até do que o filósofo, pode escrever pequenas preciosidades que valem por livros e palestras inteiras, um poeta digno de ser intitulado como tal é um ser que ultrapassa as barreiras da moda e da rotineira vida de um cidadão comum, pois ele vai além delas com suas criações, ele vai até a própria beleza humana, uma matéria que consiga atingir tão profundamente o homem é uma matéria grande, majestosa e poderosa, no entanto, ao mesmo tempo, tem a delicadeza e a sutileza dentro de sua composição, tais qualidades perdem-se na rotineira vida comum do homem.
O homem, aquele que intitula-se soberano do mundo, aquele que diz ser senhor da Terra, é tão pequeno que mal pode ver algo que ele próprio consegue criar, tão pequenino que tem a impossibilidade de enxergar a majestade da beleza, e quando esse falso soberano vê uma coroa nitidamente mais ornamentada que a sua, ele a xinga e proclama que ela não passa de uma coroa que é ostentada por efeminados e loucos, pois quando o homem comum vê algo superior ao seu senso comum não tem a capacidade de sair do seu trono de madeira para admirar um trono de prata, e reconhecer a sua superioridade em relação a madeira, a prata é a arte que permeia o mundo dos artistas, esta prata ecoa e afeta tudo e todos que estão ao seu alcance, tal metal precioso é tão bem polido que reflete a beleza e a essência de tudo que esta ao seu redor, mesmo os tronos mais ricos e ostentados tem a sua riqueza e imponência espelhados pelo trono da arte, tal trono, mesmo quando reflete a madeira dos homens comuns, é ignorado pelos mesmos, pois os tolos pensam que tudo que ultrapassa o valor da madeira é um embuste para com as suas próprias vidas.
Existem várias obras-primas no campo da poesia, estas são as "provas" da importância e da profundidade que elas tem no mundo, a poesia é bela e cativante, encantadoras em todos os sentidos e possibilidades, nela se expressa o bem e a beleza que o homem pode proporcionar e transferir em palavras, porque é nesta que se encontra a importância do viver e do saber.
Eis alguns poemas que transmitem isso:
As três coroas, de Guilherme de Almeida.
Numa sala de museu, três coroas conversavam. A que era de ouro disse às outras:
Eu pertenci a um rei, e curvei meu rei como uma pluma com o peso bom das minhas jóias tutelares.
Tive um reino a meus pés, com soldados, teares e torres brancas e altas como luas, e searas mais maduras, mais louras que o sol, e navios enormes como os templos de Deus e os palácios dos homens.
Fui tudo. Rica, poderosa, bela... Tive um rei a meus pés e o céu sobre nós dois.
Depois, pesei demais para a cabeça velha do meu rei e cai. Então, puseram-me aqui.
A segunda coroa, a de louros, falou:
Nasci na Grécia, fui o gênio verde que abençoa e inatingível como uma promessa, gesticulei na porta viva do meu loureiro chamando os poetas e os heróis do mundo inteiro. Junto a mim, sobre a copa redonda e alta, eles cantaram e lutaram, estenderam-me os braços e passaram...
O amor passou também com flautas e com danças, e o amor ergueu também seus braços para os meus.
Nem sei qual foi a mão que me colheu, porque logo murchei...
Então a terceira coroa, a coroa de espinhos, disse às outras:
Vivi só, sempre só, escondendo venenos sobre o pó. Mas um dia, enrolaram-me na cabeça de um homem que era belo, bom e puro como o fogo... E sofrendo e sofrendo, ele morreu comigo...
Então fiquei sabendo que eu valho tesouros e tesouros, mais que as coroas de ouro e as coroas de louro, porque eu coroei os reis e os heróis, eu coroei todos os homens, e ainda não murchei...
Numa sala de museu, três coroas conversavam. A que era de ouro disse às outras:
Eu pertenci a um rei, e curvei meu rei como uma pluma com o peso bom das minhas jóias tutelares.
Tive um reino a meus pés, com soldados, teares e torres brancas e altas como luas, e searas mais maduras, mais louras que o sol, e navios enormes como os templos de Deus e os palácios dos homens.
Fui tudo. Rica, poderosa, bela... Tive um rei a meus pés e o céu sobre nós dois.
Depois, pesei demais para a cabeça velha do meu rei e cai. Então, puseram-me aqui.
A segunda coroa, a de louros, falou:
Nasci na Grécia, fui o gênio verde que abençoa e inatingível como uma promessa, gesticulei na porta viva do meu loureiro chamando os poetas e os heróis do mundo inteiro. Junto a mim, sobre a copa redonda e alta, eles cantaram e lutaram, estenderam-me os braços e passaram...
O amor passou também com flautas e com danças, e o amor ergueu também seus braços para os meus.
Nem sei qual foi a mão que me colheu, porque logo murchei...
Então a terceira coroa, a coroa de espinhos, disse às outras:
Vivi só, sempre só, escondendo venenos sobre o pó. Mas um dia, enrolaram-me na cabeça de um homem que era belo, bom e puro como o fogo... E sofrendo e sofrendo, ele morreu comigo...
Então fiquei sabendo que eu valho tesouros e tesouros, mais que as coroas de ouro e as coroas de louro, porque eu coroei os reis e os heróis, eu coroei todos os homens, e ainda não murchei...
"As três coroas" é um poema que exemplifica, muito magnanimamente, um tipo de poesia que exorta o espiritual do homem, tal poema consegue exprimir algo mais do que o homem, mas que o mesmo consegue transmitir em forma de poema, pois não é algo que vem do humano, é algo muito superior, que foi dado à humanidade para que conseguisse transcrever um pouco da beleza de Deus que existe para além desse mundo, tal espiritualidade não pode ser descrita de forma melhor se não no campo das artes, pois nelas é que nos foi dado o poder de expressar a nossa essência, essência esta, que é maior do que a carne.
Os Mapas, de Jorge Luís Borges
...Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa duma Província ocupava uma Cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira. Com o tempo esses Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedades entregaram-no às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas
Os Mapas, de Jorge Luís Borges
...Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa duma Província ocupava uma Cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira. Com o tempo esses Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedades entregaram-no às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas
Este é um exemplo de poema que é possível livros inteiros de filosofia a partir dele (realmente existe um livro inspirado neste poema, chama-se "Simulacros e simulação", de Jean Baudrillard), porque ele trás uma proposta filosófica para o mundo a sua volta, tal poesia apresenta "problemas" para a filosofia. O texto retrata um império que era perfeito na cartografia, e para chegar a tal perfeição se fez um mapa do império milimetricamente perfeito com o mesmo, ora, desenhar um mapa é estar fazendo a simulação da região em questão retratada no mapa, e chegou a um ponto, que a simulação da realidade foi tão fortemente aplicada, que a própria realidade foi coberta pela simulação, com tal poema pode-se fazer questionamentos inteiros de como a sociedade funciona, isto é, tem-se a possibilidade de apresentar problemas a sociedade humana, que é composta de várias simulações de realidade. Mesmo que tal pensamento filosófico seja questionável, ele apresenta-se como um "problema" filosófico em relação ao homem, e tudo isto em um poema pequeno e simples. Eis o poder da arte da poesia.

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