Quis Custodiet Ipsos Custodes? Quem vigia os vigilantes? Quem vigia os vigias? Quem guardará os guardas? Quem irá vigiar os próprios vigilantes? E quem fiscaliza os fiscalizadores? Essas questões foram levantadas pelo poeta romano Juvenal, na Antiguidade. E foram com esses pensamentos que tive a intenção de criar este meu blog, para melhorar os meus próprios pensamentos e compartilhar com as pessoas interessadas em tal, fora o fato primordial de qualquer filosofia: fazer você pensar usando a Razão.


sábado, 14 de julho de 2012

Um "sopro de beleza"

"Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece" (Franz Kafka)

Se existe algo que é imutável, algo que transcende a existência carnal e natural do homem é a beleza, mesmo que esta apresente-se na mesma carne e na mesma natureza que a rodeia, ela precisa ser algo para além destas. Algo que é evidente, é a beleza, algo que ultrapassa o corpo é a beleza, pois a beleza não esta unicamente no corpo ou na matéria em questão, ela esta na essência destes, e nestes ela habita imutavelmente. Uma rosa, mesmo depois de queimada ou triturada, ainda é bela, pois o material é passageiro e mutante, mas a essência da rosa nunca mudará. A rosa é bela e ponto.
Mas como ter uma certeza tão grande, e atualmente, polêmica? A beleza não trata-se de uma simplória e passageira noção relativista cultural, a beleza não é uma estética bela, ela ultrapassa as noções de estética, pois não é só com formas que se consegue ser belo, consegue-se ser belo (beleza confunde-se com nobreza nestes quesitos) na música e na poesia, a beleza pode existir no trabalho e no ser, não apenas em esculturas, prédios e pinturas, encontra-se a beleza em vários locais, pois o belo é harmônico, o belo não é disforme e caótico, para existir algo assim é necessário uma certa harmonia, e é com ela que vem a beleza. Não existe beleza em uma imagem que, por essência, é disforme e caótica, não existe beleza em uma poça de lama ou em roupas sujas, tão pouco em uma escultura de lixo, pois quando tenta-se aplicar a beleza em coisas sem harmonia, a beleza morre, ela desfigura-se e não pode ser identificada como beleza sem a ordem.
Embora a beleza transcenda a matéria que esta habita, ela não habita em tudo que existe. Em uma foto de uma poça de lama, se esta foto tentar mostrar o real e a essência desta poça de lama, não vai haver beleza em algo que demonstra alguma coisa feia e disforme, pois assim como não existe luz na escuridão, não pode existir beleza em uma obra ou algo que retrata a feiura essencial, e que a represente da mesma maneira, de alguma coisa. Dizer que existe beleza em utilizar o lixo, e a essência deste, em alguma obra, seria da mesma ordem que retratar a beleza humana utilizando o egoísmo e os erros do homem, seria a mesma coisa em que se retratar a natureza apenas com aquilo que a torna disforme e feia, pois a arte, para ser uma arte, precisa da beleza dos seres ou das coisas, porque se existe uma arte, ela tem que ser efetuada com beleza, isto é a essência da arte.
A Festa de São Nicolau, de Jan Havickszoon Steen
As verdadeiras e grandes obras de arte expressam a vida e a essência desta vida em suas obras, mesmo que estas não sejam pinturas ou esculturas, a arte é um meio aonde pegamos o que existe de melhor e transferimos para algum trabalho, mesmo até, por exemplo, na medicina exista arte, pois o médico que realmente sabe fazer um bom e belo trabalho em seu campo medicinal, consegue transmitir o essencial de seus conhecimentos e virtudes que o homem da medicina tem, ora, se este não transmitisse em seu trabalho tais essências boas, poderia ele ser um médico? Poderia tal coisa que ele faz ser chamada de arte ou até mesmo ser titulada como medicina? Se fossemos acreditar que a arte e beleza são relativas, por que não um torturador não poderia  também ser um médico, seu trabalho uma arte e sua tortura um tipo de medicina? Não poderia, pois se fossemos relativistas na medicina, a medicina ficaria estagnada, e ficando em tal forma ela não seria mais o que ela é, ela vira em um ato um milhão de coisas, menos aquilo que ela deveria ser. Assim fazem, aqueles que utilizam do feio para querer retratar o bonito, assim se faz no modernismo e no pós-modernismo, assim se estraga e adultera a arte.
Mas não deveria ser feio e desforme quando os artistas tentam transmitir para o papel algo mal e essencialmente ruim? Sim, a feiura e o caos de coisas que são ruins e feias também são transmitidos na arte, porém, existe uma variante em relação a isso de acordo com o que quer se mostrar em relação a figura, por exemplo, a retratação de uma guerra, sendo representado não a imponência dos exércitos, nem o brilho das armas ou a coragem dos soldados, mas sim o horror e morte da guerra (um exemplo de demonstração do mal da guerra esta presente na obra O Senhor dos Anéis, de J.R.R Tolkien, para olhos bem atentos em literatura consegue perceber que, mesmo em uma guerra justa, os malefícios e calamidades desta são tão grandes que não igualam-se, para quem sofre diretamente com ela, aos bens que a guerra pode trazer, ou seja, a guerra é um mal necessário para impedir um mal maior, mas mesmo assim, não deixa de ter as consequências ruins e feias por ser um mal), ainda sim consegue ser uma obra de arte, a arte depende bastante da beleza interior existente, porém, ela pode-se utilizar desta beleza para retratar algo feio, ela pode usar desta vivacidade para retratar algo que é ruim. Aqui nota-se uma aparente contradição entre a beleza e a arte, pois ora ela é dependente da beleza para existir como tal, mas hora ela também consegue retratar algo feio e ruim, tal fato existe porque a arte tem o poder, além de retratar, de dar forma as coisas e seres, mesmo que estes são sejam visíveis, um pintor, por exemplo, pode retratar a tristeza de uma esposa que foi traída em um quadro, mas sem necessariamente a obra do pintor apresentar a mesma feiura e o mesmo desespero.
Uma Quimera, na Catedral de Notre-Dame de Paris.
O fato de poder retratar algo ruim com beleza parece um notório paradoxo, contudo, é um fato que existe na arte, pois a arte não retrata apenas algo que existe neste mundo, arte que é arte consegue puxar algo para além do mundo, artistas são aqueles que acima de quase todos os outros homens, conseguem (e muito bem) exprimir a transcendência existente para as suas obras, os artistas são aqueles que liquidam com o materialismo em suas obras, pois mostram com o material, que o próprio material tem a mais, que a beleza que existe na matéria é maior que esta, que é, segundo Aristóteles, imutável e não existe possibilidade de mudar a beleza, pois a beleza é infinita, não termina, e se não termina não é deste mundo. Estas são as razões de existir a aparente contradição que a arte enfrenta, uma obra bonita de arte pode sim representar algo feio e ruim, um escritor pode por em seu livro com maestria e imponência belas e maravilhosas, o desespero de um filho que perde um pai, ou um escultor pode por em sua obra a figura grotesca e disforme de um demônio, todavia, com talento e uma imponência também. Isto não afeta a arte em si, o que a afeta é o adultério que ocorre quando se troca beleza da obra com a feiura do mundo, ou seja, quando na arte a feiura e o ruim ganham da beleza e do bom, ora, se o mal ganha do bem e o feio do belo, não é algo ruim e danoso? Logo, quando se relativiza extremamente a arte tal fato é consumado, pois nas obras relativistas o bom perde para o mau e o feio ganha do belo nas obras. Eis o problema de toda a arte moderna e pós-moderna. 

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