Quis Custodiet Ipsos Custodes? Quem vigia os vigilantes? Quem vigia os vigias? Quem guardará os guardas? Quem irá vigiar os próprios vigilantes? E quem fiscaliza os fiscalizadores? Essas questões foram levantadas pelo poeta romano Juvenal, na Antiguidade. E foram com esses pensamentos que tive a intenção de criar este meu blog, para melhorar os meus próprios pensamentos e compartilhar com as pessoas interessadas em tal, fora o fato primordial de qualquer filosofia: fazer você pensar usando a Razão.


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Positivamente loucos (primeira parte)

"O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria." (Isaac Asimov)

Loucura é uma palavra demasiada pesada, todavia, deveras ela é bem utilizada para este caso. Em um dos meus textos, Os Senhores do Paradoxo, fiz uma análise breve do decaimento da filosofia durante a Idade Moderna e a Contemporânea, mas não exibi nem um pouco as correntes de pensamento que deterioram a filosofia, e portanto, causam um dano a humanidade como um todo, dado que a filosofia influencia o andar da civilização a longo prazo. Mas também não exibirei todas ou a maioria destas, pois o texto ficaria muito grande, mas sim duas delas, o positivismo, e o neo-positivismo, resquícios e influências desses pensamentos são muito evidentes nas ciências contemporâneas e nos livros que contam a história da ciência e do progresso científico humano, e  influencias diretas ou indiretas deste são muito evidenciadas, também, em alguns discursos de cunho político, como o discurso libertário ou comunista, e a loucura estérica intrínseca em seus discursos e pensamentos, se analisados corretamente, ou seja, para além do que o idealizador destes pensamentos diz, para uma análise profunda do pensamento do idealizador. Oque é raro de ocorrer, ao menos no que tenho notado, no meio intelectual.
Retrato de Lavoisier e sua esposa, de Jacques-Louis David
O problema em si não é a ciência (refiro-me aqui a todas as ciências, sejam elas de cunho "exato", biológico ou humano), o método científico ou o uso dela para corrigir certos erros cometidos, em termos de ciência, no passado do homem, como por exemplo o geocentrismo, mas sim dar a ciência um ar de divino, isto é, por na ciência um cargo de detentora da verdade e ordenadora do mundo, dando a entender que antigas civilizações e sociedades humanas são inferiores a nossa pela carência de ciências, de modo geral ou particular, em seus respectivos meios culturais, nestas sociedades e civilizações. O pensamento de que uma sociedade é maior ou melhor do que a outra pelo simples avanço em medicina, física, história, geografia ou a criação de novas ciências por meio de investigações de novos estudos, é totalmente falho e muito preocupante, pois se uma sociedade existe, e ela tem agentes culturais que moldaram ela da forma que ela é hoje, os mesmos agentes culturais, que estão em uma sociedade que foi, ou está sendo, contaminada por um pensamento desse, serão gravemente atacados e desonestamente rotulados de ultrapassados e caídos, em comparação com a sociedade atual, isto é, se criará uma sociedade onde os valores e ensinamentos dados por estes antigos agentes culturais serão totalmente desprezados e execrados por conta deste pensamento falso de superioridade, e por causa de um progresso científico notório em algumas áreas. Tal pensamento não limita-se em danar apenas os antigos agentes (o "agente", neste caso, não necessariamente trata-se de uma pessoa, um grupo de pessoas ou de instituições do meio social, pode ser alguma matéria antiga que entra em grande contraste com o progresso, ou a noção do mesmo, científico, pode ser uma cosmovisão, uma filosofia, um pensamento de senso-comum, embora este sempre deva ser contestado, ou até mesmo concepções de ética e moral), mas também todo e qualquer pensamento, seja ele novo ou não, que se embase ou apresente alguma defesa a um destes antigos agentes.
Os agentes culturais até podem estar "errados" em algum ponto ou a metodologia destes é falha para ensinar algum bem de maneira satisfatória para o povo, todavia, o combate ideológico feroz e cego a estes agentes é algo que deve ser censurado, principalmente se estes agentes forem experientes em relação ao humano e como as coisas funcionam no coletivo e individual, como por exemplo, as grandes religiões, estas tem séculos ou milênios de experiencia com o humano, apesar de existirem abusos na administração ou um controle sobre a população por parte delas em algum momento (ou vários) da sua história, são estas, que além de tudo, até da própria filosofia, que criam conceitos e noções de moral na sociedade em questão, e por criarem tais conceitos e noções de moral, afeta-se, também, o Estado com o fator religioso, uma vez que elas nascem na sociedade, e esta cria o estado (a exceção de uma colônia, que é um Estado criado por outro Estado, mas se esta vier a se tornar um Estado independente, será criado um Estado, na concepção de Estado Justo, de acordo com a sociedade). Outro exemplo a ser citado é a filosofia, mesmo que existam certas linhas filosóficas apresentem certos "erros", o abandono dela para uma desculpa de progresso é totalmente inadmissível, pois é ela que também ajuda, tanto ou mais que a religião, dependendo do caso, a montar os sistemas de ordem do governo, se será uma monarquia, democracia e etc, mesmo que uma certa filosofia seja, de certo modo, "opressora" da sociedade que ela habita, esta não pode ser tirada a força e desonestamente da sociedade, pois isso pode gerar violência e uma cultura de ódio dentro da mesma, em todo caso, não é aceitável que se ataque uma sociedade com mudanças tão severas e desonestas, porque mesmo que a mudança seja boa, os métodos de faze-la acontecer não são bons, e criasse-a problemas futuramente com uma mudança neste nível, e isto entraria em uma notória contradição com o discurso inicial da proposta de mudança para que ocorra o progresso, pois não traria progresso, e sim uma derrocada em uma sociedade que detinha valores culturais antigos e valiosos para a mesma, pois não se pode planificar as sociedades humanas, porque depois da palavra sociedades, vem a palavra humana, e o humano é tão instável que chega a ser estável. 
Mas é preciso expor o erro, em vários níveis, da concepção de progresso e como ele ocorre na humanidade, do positivismo, não no conteúdo da proposta simplesmente, contudo, deve se analisar  substancialmente, é assim que se estuda profunda e seriamente alguma proposta ideológica, pois o conteúdo da proposta sempre será expresso exaltando as qualidades, expectativas, esperanças e etc, porém, não terá uma concepção realista da proposta em questão. Segundo o positivismo a humanidade tem três fazes de desenvolvimento, a primeira é a Teológica, a segunda é a Metafísica e a terceira é a Positiva. Em relação a primeira é considerado que a humanidade explica a realidade a sua volta por meio de entidades dividas, deuses, espíritos e etc, a segunda diz que a humanidade já apresenta algum progresso, pois agora usa-se a razão para certas explicações, porém, ainda existem questionamentos a respeito da Criação do homem e de seu fim, já a terceira (que nunca chegou, e nem chegará), nem se busca mais o "por que" no universo a nossa volta, mas sim o "como", e aqui aplica-se o racionalismo exacerbado e cientificismo-empirista em todo e qualquer pensamento, dando a ideia de que não se pode chegar a explicação concreta de algo, sem as metodologias modernas e atuais, o principal erro deste pensamento é o de acreditar que a humanidade progride, como se fosse subir uma escada, entretanto, historicamente existem comprovações de civilizações mais avançadas do que as outras e que tais civilizações chegaram ao seu colapso, isto é, os homens naquela civilização alcançaram um patamar em termos de tecnologia, cultura e poder, na teoria positivista, esta civilização deveria continuar crescendo, trocando o "misticismo" pela metafísica e a metafísica, mais tarde, pelo pensamento positivo (cientificista), mas se essa civilização (ou sociedade) cai, como por exemplo o Império Romano, ela tem uma regressão praticamente que total em seus avanços, isto é, os mesmos que eram modernos, cultos e poderosos transformam-se em antigos, ignorantes e fracos com a queda de uma sociedade, Roma é o melhor exemplo existente, a cidade de Roma, eu seu auge, tinha um milhão de habitantes (marca que só foi atingida novamente mais de mil anos depois, com Paris, no séc. XIX), e cidades com essa proporção de pessoas só se tornaram possível depois da Segunda Revolução Industrial, e só se tronaram comuns quase cem anos depois desta, em 1950.
A lógica do mesmo, quanto deparada com a realidade, é o que o condena, pois se a humanidade tem o seu progresso vinculado com o progredir do tempo, então os bárbaros que destruíram o Império Romano (não foi a única causa da sua queda, deve-se ressaltar que a divisão do Império em dois, o enfraquecimento das províncias e a abolição do regime escravocrata, este último por influência da Igreja Católica, influenciaram muito na sua queda) deveriam estar mais avançados do que os romanos, mas não estavam, tanto que o começo da Idade Média foi marcado pela barbárie cometida por povos bárbaros contra o Ocidente que se desvinculou de Roma, a queda na cultura e no progresso científico só foram "reparados" no século XII (considerando que Roma caiu no séc. V). Este é o erro fundamental do positivismo, dizer que a humanidade tem um crescimento positivo com o passar dos séculos, mas existem provas de que a mesma caiu depois de um período de ascensão, inclusive, se formos levar para um período mais contemporâneo, como no final do séc.XIX e até a década de 1980, a humanidade foi cada vez mais se afastando do espiritual na década de 80 do séc. XX, mas se compararmos os avanços tecnológicos da década de 1980 até 2012, com os avanços obtidos na Segunda Revolução Industrial, no final do séc. XIX até o começo do séc. XX, veremos que a quantidade de avanços obtidos naquela época é muito maior do que os de hoje, atualmente os avanços se concentram na área de comunicações, existem outras áreas que tem avanços, é claro, mas se compararmos com os do séc. XIX e os do começo do séc. XX, onde a sociedade era mais religiosa no mundo todo, os avanços que nós temos são pequenos, pois além dos avanços em comunicação (se inventou o telefone, televisão, telégrafo, rádio e etc), antes, se teve avanços nos meios de transporte (inventou-se carros automóveis, aviões, navios a vapor mais potentes, houve uma melhora nos motores), avanços imprescindíveis na tecnologia de energias (a eletricidade e os sistemas elétricos de hoje são todos baseados, e dependendo do lugar, cópias dos sistemas elétricos da década de 1940), de construção (pontes enormes, estradas gigantescas e arranha-céus) e etc, recentemente só se viu uma evolução mais acentuada na comunicação, aonde a conectividade das pessoas aumentou para um nível nunca antes visto, mas comparados a os de uma sociedade mais religiosa não chegam a grandeza quantitativa e aos níveis de importância (só existe internet porque existe eletricidade). 
Mas seria culpa da religião o progresso? Não necessariamente. Devemos levar em conta que na época ocorreram uma revolução industrial e duas Grandes Guerras mundiais, aonde os sistemas foram se aprimorando com mais velocidade por causa da guerra, porém, o fato de que em uma sociedade mais religiosa, se comparada com a nossa, teve um progresso bem mais elevado desmorona o positivismo em outro fator em sua teoria, pois apresenta uma contradição da sociedade humana com o proposto pelo próprio. Uma sociedade aonde existe o fator religião e o fator da metafísica consegue ter mais avanços científicos (e avanços de mais importância) do que uma que não tem, porque isso não depende da religião ou do que é pregado por ela, isto depende de vários fatores esternos e internos de uma sociedade ou civilização, isso é que faz ela crescer ou não, não é a progressão do tempo ou o "misticismo" que existe nestas que irá acarretar em seu progresso, regresso ou paralisação nos meios científicos e culturais existentes nela.

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