Quis Custodiet Ipsos Custodes? Quem vigia os vigilantes? Quem vigia os vigias? Quem guardará os guardas? Quem irá vigiar os próprios vigilantes? E quem fiscaliza os fiscalizadores? Essas questões foram levantadas pelo poeta romano Juvenal, na Antiguidade. E foram com esses pensamentos que tive a intenção de criar este meu blog, para melhorar os meus próprios pensamentos e compartilhar com as pessoas interessadas em tal, fora o fato primordial de qualquer filosofia: fazer você pensar usando a Razão.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Um pouco sobre as falácias

"É preciso ir à verdade com toda a alma." (Platão)

Filósofo meditando, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn
Em meu último texto fiz uma referência a um tipo de falácia utilizada pelos sofistas para ganhar algum debate (veja no meu último texto: Os Senhores do paradoxo), naquele caso, apresentei uma falácia relativista, isto é, a de que não existem, verdades, certezas ou algum absolutismo no mundo, esse tipo de falácia, porém, não é a única existente, existe uma lista grande de falácias, é claro, que pelo seu tamanho não irei colocar todas, e existem muitos tipos de casos aonde elas são e elas não são falácias, com por exemplo, o famoso argumentum ad hominem (em Latim, argumento contra a pessoa), ele é um sofisma quando os dois debatedores estão debatendo ideias, e um, decide fugir da proposta de contra-argumentar somente os argumentos, e passa a atacar a pessoa que profere esses argumentos (vou falar mais sobre o argumentum ad hominem no decorrer do texto), porém, ele não é falacioso se os dois debatedores estão debatendo sobre as suas pessoas, pois aí elas estariam dentro da premissa lógica do debate proposto. 
A falácia, no entanto, não é uma coisa única e exclusiva do sofista, ela pode ser também um erro de pensamento de qualquer filósofo, todavia, se uma falácia vem de um filósofo, esta, por obrigação, é uma falácia não-proposital, sem nem uma intenção desonesta, de levar alguém ao erro ou, também, não ser levada a sério (e propagada) pelo mesmo, se, em seus pensamentos atuais ou anteriores levarem a o próprio crer que aquilo que pensa é uma falácia. Nem todas as falácias são propositais, algumas, entretanto, não passam de meros erros desapercebidos ou erros por falta de experiência (ou prática) daquele que a usa em um debate ou em uma afirmação filosófica, mas, como disse Platão, "é preciso ir à verdade com toda a alma", isto é, com toda a essência de seu ser, com toda a sua vontade, força e espírito e isso é oque levará o pensador honesto para longe das falácias.
O triunfo da justiça, de Hans von Aachen
A pessoa que tem a virtude da  justiça odeia a injustiça, e dos argumentos utilizados para propagar a mesma, logo, a pessoa que é justa de coração e mente deve abandonar o sofismo e as contradições dentro de si mesma, e isso inclui as suas convicções essenciais e existenciais. O Justo, deve prezar a filosofia em seu mais profundo significado original (Sócrates) e usá-la para buscar e conhecer a verdade, e somente a verdade, para o bem de si mesmo e para o bem comum, o filósofo, não é aquele que, por incentivos titulares ou monetários, busca a verdade, o filósofo busca a verdade por ser filósofo, por ser um humano. Aqueles que são movidos por títulos acadêmicos, dinheiro ou mesmo o reconhecimento histórico, são aqueles que cairão na desgraça do sofismo e utilizarão as suas falácias (falácias essas que se parecem muito com um pensamento honesto) para ter tais títulos, horarias, dinheiro e etc. Os que conseguirem se sobrepujar perante tais futilidades, conseguirão ser oque querem ser, conseguirão ser aquilo que realmente definem ser, de acordo com a sua origem, serão filósofos.

Existem variadas formas de falácias, detre elas vou destacar algumas e dar uma explicação delas e o porque delas serem erros de lógica e desonestas:

Apelo ao ridículo: A apelação ao ridículo (não confundir com o reductio ad absurdum, de Aristóteles) é, sem mais delongas, a simplória afirmação de que o argumento em questão é ridículo, mas sem provas ou argumentos que comprovem que tal afirmação seja ridícula.
Exemplo:
-" O homem é um animal político
-"O homem é um animal político? Isso é ridículo!"

Apelo à pobreza (argumentum ad lazarum): A apelação à pobreza (muito usada atualmente...) é a defesa de uma pessoa, ou de um argumento dessa pessoa, só pelo fato dela ser pobre, no entanto, não tem só como referência a pobreza monetária, também pode ser a pobreza intelectual ou espiritual (o apelo à pobreza pode ser uma variação do apelo à emoção). Se a pessoa comete um crime, ofende ou diz algo errado, a apelação à alguma carência desta de algo, só por ela ter essa carência esta deve ser tratada como certa, e caso o outro argumentador seja mais rico em relação ao outro, este se torna errado só por causa de sua riqueza. 
Exemplo:
-"Aquela pessoa está errada, pois 3 + 3 não é igual a 8"
-"Mas essa pessoa é pobre, e por isso está certa"

Apelo à força (argumentum ad baculum): O apelo à força é um tipo de falácia que defende um ponto de vista de alguém só porque esse tem mais força do que você, ou seja, não é o argumento em si que define a veracidade de alguma questão, e sim a força do argumentador ou de algo que está em debate, como por exemplo, o Estado. 
Exemplo:
-"Os homens tem direitos que não podem ser mudados"
-"Se você continuar defendendo isso, você irá se arrepender, eu garanto!"

Apelo à autoridade (argumentum ad verecundiam): A apelação à autoridade é, e foi, muito utilizada na história da humanidade, talvez, a mais utilizada. Ela consiste em utilizar certa autoridade que alguém tem na área para validar algum assunto, porém, não é utilizado o pensamento da autoridade, e sim a pessoa da autoridade como validação.
Exemplo:
-"É um fato que o progresso científico, artístico e cultural medieval foi incentivado intelectualmente e financeiramente pela Igreja Católica, devido aos documentos encontrados e novos estudos mais bem-feitos sobre a Idade Média"
-"Isso não é verdade, pois existem vários doutores de história que afirmam que a Idade Média foi uma era de regresso cultural por causa do patrulhamento religioso feito pela Igreja"

Apelo à maioria (argumentum ad populum): Esta falácia não deve ser confundia em hipótese alguma com o sistema democrático, pois a democracia é um sistema político eletivo com o apoio da maioria, oque é diferente de uma falácia que define que a verdade é dependente da maioria das pessoas.
Exemplo:
-"Esse político não é um bom político, pois mente e está envolvido em desvios de verba pública"
-"Só que esse político ganhou este cargo por duas vezes seguidas, por isso, ele é um bom político"

Apelo à riqueza (argumentum ad crumenam): É uma falácia que utiliza da superioridade monetária do argumentador para justificar alguma posição, ato ou argumento do mesmo, ou seja, a razão sempre está com o mais rico.
Exemplo:
-"É errado julgar as pessoas, unicamente, por sua aparência"
-"Eu sou rico, posso julgar as pessoas da maneira que quiser por isso!"

Ataque ao argumentador (argumentum ad hominem): O ataque ao argumentador é uma forma de responder a algum argumento atacando a pessoa do argumentador, desviando assim, o debate em questão. Essa falácia, tem a principal intenção, de desviar a atenção de um debate, seja público ou privado, ela é utilizada para chamar a atenção de uma característica do argumentador para, assim, "ganhar" o debate, porém, ela também pode ter propósitos de invalidar o argumento do argumentador. O ataque ao argumentador é, deveras, utilizado como se fosse um ponto final em algum debate, apontando, ás vezes, algum erro da pessoa que tenha a ver com oque ela defende ou ataca.
Exemplos:
Exemplo 1
-"A corrupção é um mal que deve ser erradicado do nosso país"
-"Você é um político que esteve e está envolvido em vários escândalos de corrupção, você não tem moral para falar tal coisa!"
Exemplo 2
-"Nós devemos nos manter na paz para que não tenha sofrimentos desnecessários por causa da guerra"
-"O seu país já entrou em guerra antes, a guerra é boa"

Apelo à novidade (argumentum ad novitatem): É uma falácia que afirma que uma ideia, por ser mais nova ou atual, necessariamente é melhor do que uma ideia mais antiga e "ultrapassada". A apelação à novidade é seguir sempre as novas tendências, morais, ideológicas ou religiosas (ou até mesmo não-religiosas), renegando totalmente os antigos costumes, ideias e religiões só pelo fato de serem velhas. Também é comum (muito comum) dizer que algo, por ser novo, está mais certo do que algo que é antigo, pois, esta falácia superestima o novo e subestima o velho, logo, ela não tem nem uma análise profunda e coerente tanto do antigo quanto do novo, a comparação que é feita por quem utiliza desse tipo de falácia é muito superficial, portanto é fácil, para o sofista, "ver" essa suposta superioridade da novidade (escrevi dois texto sobre isso: Então vamos ser críticos e O novo, para o novo, é incriticável).
Exemplo:
-"Na natureza, o macho e a fêmea tem os seus respectivos órgãos reprodutores para multiplicar a espécie, logo, não existe fins na essência do homem para o homossexualismo"
-"Deixe de ser preconceituoso e alienado, estamos em pleno séc.XII, não estamos mais na Idade Média em que você vive!"

Apelo à tradição (argumentum ad antiquitatem): Da mesma forma que o apelo à novidade, a apelação à tradição não tem uma análise completa do velho e do novo, e sempre pressupõe que o antigo e o tradicional é o melhor do que o novo e recente, só por ser antigo e tradicional. Não tem nem uma explicação profunda e séria sobre o que é melhor, ou pior e tem sempre o tradicional como o certo, e o novo como errado. Essa falácia, é, também, bastante utilizada para defender alguma sociedade, padrão ou algum valor moral antigo, só que sem nem uma profundidade, por isso, é uma falácia.
Exemplo:
-"Eu comprei, recentemente, uma coleção de miniaturas de carros na banca, a coleção é muito boa"
-"A coleção não é tão boa quanto a minha, que tem 30 anos de idade"

Apelo ao preconceito (variação do ad hominem): A apelação ao preconceito é associar valores ou defeitos no argumentador, ou na questão a ser debatida como forma de colocar um ponto final no debate.
Exemplo:
-"O aborto é um crime, pois o feto, dentro da barriga da mãe, além de ser filho de Deus, é um ser-humano com vida e tem direitos a serem respeitados como qualquer outra pessoa"
-"Você é um religioso, você não tem capacidade racional de debater sobre isso, pois pessoas racionais não desaprovam o aborto"

Bulverismo: O bulverismo é uma falácia que pressupõe que o argumentador já está errado sobre a questão em debate, depois, tenta explicar o porquê do argumentador estar usando aquele tipo de argumento, em suma, é um ato desonesto de começar ou de dar continuidade ao debate, pois ele não responde o argumento com um contra-argumento. Normalmente quando sofistas utilizam de bulverismo não tem a capacidade de seguir um debate sério, pois ele simplesmente nega a veracidade, sem explicações, da proposta do outro.
Exemplo:
-"Se algo se move, ele é, ou foi, movido por algo, e não sozinho"
-"Isso é absurdo, você só está dizendo isso porque você acredita nas leis da física!"

Egocentrismo ideológico: Esse tipo de falácia, é, sem dúvida, a total incapacidade do sofista sair de um ponto de vista, ideológico ou de qualquer outro ponto de vista, pois ele afirma que o seu pensamento, ou crença (de qualquer tipo) está certa, utilizando argumentos dentro da própria, isto faz uma espécie de círculo, onde o sofista se sustenta.
Exemplos:
Exemplo 1
-"Se a Bíblia é o livro inspirado por Deus, que provas posso ter disso?"
-"A Bíblia é inspirada por Deus sim, pois segundo várias passagens nela, os escritores tiveram inspiração divina"
Exemplo 2
-"Por que o ateísmo libertaria as pessoas?"
-"Porque, nele, as pessoas não acreditam em deuses"

Apelação à nostalgia: O apelo nostálgico diz que algo é bom, ou certo, pelo mero fato de ter marcado alguma parte da vida do argumentador no passado, este apelo é usado, também, para justificar algo que, no seu passado foi visto como bom, mas com um revisionismo próprio se concluí que é ruim, para o sofista é bom só porque foi visto como bom no passado (normalmente na infância).
Exemplo:
-"Aquele programa de televisão, se olharmos bem, não é muito bom..."
-"O que? É claro que ele é bom, ele marcou a minha infância quase toda, que inteira!"

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